
Os poetas mortos
Data 02/06/2026 09:52:35 | Tópico: Poemas
| Tenho por incerto hábito sentar-me à mesa com poetas mortos, pessoas discretas que não interrompem nem questionam por excesso, dominando, sem qualquer dúvida, a arte da reciprocidade interpessoal. Pedem café e deixam que arrefeça um pouco, para que o sabor, assim apurado, rime com a conquistada vetustade; por vezes, bebem um copinho de água na esperança vã que o líquido hidrate as suas articulações secas e inúteis; outros, desentusiasmados pela passagem do tempo, preferem um chá de camomila, uma bolachinha com chocolate. Raramente se juntam mais do que dois de cada vez porque os poetas mortos são pessoas solitárias e pouco dadas a estéreis reuniões, preferem pensar e depois derreter ouro em filigrana na lisura do papel. Visita-me Louise Labé, e recita: Ô dure mort, ô sort trop rigoureux! Ma belle flamme est toute éteinte en pleurs, Et mon esprit en cendres consumé. Visita-me Paul Valéry, queixando-se do excesso de cerimónias, da vaidade dos vivos e do café, sempre pior do que o da sua época. Visita-me Lorde Byron, fala-me da brutalidade do pai e das feridas que a poesia nunca curou. Visita-me García Lorca, bebe um copo de cerveja de uma só vez e fala de flores amarillas. Visita-me, enfim, Fernando Pessoa, sempre divertidíssimo com as teorias e as teses sobre a sua heteronomia. Qualquer um deles, reparo com curiosidade, lamenta a partida temporã e a invivida contemporaneidade. Do outro lado da rua, repete-se muitas vezes: um homem passeia o seu cão invisível; acena para os poetas mortos, sorri.
|
|