Poemas : 

Os poetas mortos

 
Tenho por
incerto hábito
sentar-me à mesa
com poetas mortos,
pessoas discretas
que não interrompem
nem questionam por excesso,
dominando,
sem qualquer dúvida,
a arte
da reciprocidade interpessoal.
Pedem café e deixam
que arrefeça um pouco,
para que o sabor, assim apurado,
rime
com a conquistada vetustade;
por vezes,
bebem um
copinho de água
na esperança vã que o líquido hidrate as suas articulações secas
e inúteis;
outros, desentusiasmados pela passagem do tempo,
preferem um chá de camomila,
uma bolachinha com chocolate.
Raramente se juntam
mais do que
dois de cada vez
porque os poetas mortos são
pessoas
solitárias e pouco dadas
a estéreis reuniões,
preferem
pensar
e
depois
derreter ouro
em filigrana
na lisura do papel.
Visita-me Louise Labé,
e recita:
Ô dure mort, ô sort trop rigoureux!
Ma belle flamme est toute éteinte en pleurs,
Et mon esprit en cendres consumé.

Visita-me Paul Valéry,
queixando-se do excesso
de cerimónias,
da vaidade dos vivos e do café,
sempre pior do que o da sua época.
Visita-me Lorde Byron,
fala-me da brutalidade do pai
e das feridas que a poesia
nunca curou.
Visita-me García Lorca,
bebe um copo de cerveja
de uma só vez
e fala de flores amarillas.
Visita-me, enfim, Fernando Pessoa,
sempre divertidíssimo
com as teorias e as teses sobre a sua heteronomia.
Qualquer um deles,
reparo com curiosidade,
lamenta a partida temporã
e a invivida contemporaneidade.
Do outro lado da rua,
repete-se
muitas vezes:
um homem passeia o seu cão invisível;
acena para os poetas mortos,
sorri.

 
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Levant
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