
Privação do Mar
Data 04/06/2026 10:23:53 | Tópico: Poemas
| Dizem que o pão agora é um luxo opaco e confiscam os pincéis, na essência da arte. Fecham as portas da frente, temos de recusar o trinco.
Querem-nos deitados na gaveta do esquecimento, e fazer do pensamento um ferro velho, calado. Mas o silêncio imposto tem fendas por onde cresce o caruncho da pergunta.
A praia esquece o entardecer dos dias quentes de verão, os ventos tempestuosos que a destroem e redesenham. Apaga-se a memória da areia fina, mas fica a ferida aberta, a aventura, essa necessidade de ter mar.
Mas o homem guarda um livro proibido no bolso e mastiga a raiva como quem mastiga a côdea dura. A liberdade não é um hino lírico, é o esfolar dos dedos na areia da rotina.
Clamar quando a mordaça tem sabor a ferro, insistir no traço, na tela clandestina, no pão partilhado. Eles ditam o ponto final na página rasgada, mas nós escrevemos à margem, com a unha, a vontade que nenhum decreto consegue limpar.
(Inspirado na canção "Canção Sem Fim", de A Garota Não)
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