Dizem que o pão agora é um luxo opaco
e confiscam os pincéis, na essência da arte.
Fecham as portas da frente,
temos de recusar o trinco.
Querem-nos deitados na gaveta do esquecimento,
e fazer do pensamento um ferro velho, calado.
Mas o silêncio imposto tem fendas
por onde cresce o caruncho da pergunta.
A praia esquece o entardecer dos dias quentes de verão,
os ventos tempestuosos que a destroem e redesenham.
Apaga-se a memória da areia fina,
mas fica a ferida aberta, a aventura,
essa necessidade de ter mar.
Mas o homem guarda um livro proibido no bolso
e mastiga a raiva como quem mastiga a côdea dura.
A liberdade não é um hino lírico,
é o esfolar dos dedos na areia da rotina.
Clamar quando a mordaça tem sabor a ferro,
insistir no traço, na tela clandestina, no pão partilhado.
Eles ditam o ponto final na página rasgada,
mas nós escrevemos à margem, com a unha,
a vontade que nenhum decreto consegue limpar.
(Inspirado na canção "Canção Sem Fim", de A Garota Não)
“Ausento-me na quietude das folhas que caem, quando a música do verbo se cala e a alma se agasalha em si mesma.”