Poemas : 

Privação do Mar

 
Dizem que o pão agora é um luxo opaco
e confiscam os pincéis, na essência da arte.
Fecham as portas da frente,
temos de recusar o trinco.

Querem-nos deitados na gaveta do esquecimento,
e fazer do pensamento um ferro velho, calado.
Mas o silêncio imposto tem fendas
por onde cresce o caruncho da pergunta.

A praia esquece o entardecer dos dias quentes de verão,
os ventos tempestuosos que a destroem e redesenham.
Apaga-se a memória da areia fina,
mas fica a ferida aberta, a aventura,
essa necessidade de ter mar.

Mas o homem guarda um livro proibido no bolso
e mastiga a raiva como quem mastiga a côdea dura.
A liberdade não é um hino lírico,
é o esfolar dos dedos na areia da rotina.

Clamar quando a mordaça tem sabor a ferro,
insistir no traço, na tela clandestina, no pão partilhado.
Eles ditam o ponto final na página rasgada,
mas nós escrevemos à margem, com a unha,
a vontade que nenhum decreto consegue limpar.

(Inspirado na canção "Canção Sem Fim", de A Garota Não)



“Ausento-me na quietude das folhas que caem, quando a música do verbo se cala e a alma se agasalha em si mesma.”

 
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klopes
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Enviado por Tópico
DCM_1978
Publicado: 27/09/2026 16:29  Atualizado: 27/09/2026 16:29
Da casa!
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 402
 Re: Privação do Mar
Caro Carlos Lopes, este poema deixou-me sem palavras, obrigado pela partilha 🙏

Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 28/09/2026 13:42  Atualizado: 28/09/2026 13:45
Super Participativo
Usuário desde: 15/02/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 133
 Re: Privação do Mar
Caro David Mendes,

Obrigado pelo comentário. Lembrei-me a propósito, de um pensamento de Sophia:

“A poesia é a nossa mais íntima implicação, na realidade ela é por si mesma compromisso e participação. O poeta não vem apenas contar e cantar o mundo. Vem também modificá-lo.”

Sophia de Mello Breyner Andresen

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