
Dó, Re, Mi, Fá... Só.
Data 10/06/2026 20:05:08 | Tópico: Poemas
| Está só.
Só como uma estátua secular no meio de algum bairro central.
Todos param. Fotografam. Passam.
Ninguém conhece a sua história.
Só como um molde de mármore ocupando um lugar onde nunca se sentiu em casa.
Está só como quem dorme enrolado em si mesmo.
Como quem beija o travesseiro à procura de respostas em coisas inanimadas.
Está só como quem nunca engole a saliva de outro alguém.
Como quem não lambe.
Não chupa. Não beija. Não toca.
Como quem não sabe o que é essência. Conhece apenas a carne.
Está só como quem sai com os amigos e não encontra ninguém.
Como quem grita para o nada e seca uma lágrima invisível, uma lágrima sem cor, que desaparece antes de alcançar o lábio.
Está só como quem entra todos os dias no mesmo vagão, atravessa as mesmas paisagens e regressa ao mesmo lugar.
Está só como quem trabalha, paga as contas, compra comida e mata a fome sem sentir o sabor do que come.
Dorme sem sonhar. E quando sonha, já não se lembra do que sonhou nem do que sentiu.
Está só como quem toca o próprio membro até à ejaculação fria. Sozinho. Enquanto observa o corpo de uma mulher qualquer. Uma desconhecida. Um vulto. Uma imagem emprestada para aliviar por instantes o vácuo que a sua solidão impõe.
Está só.
E está só porque assim escolheu ficar. Até ao dia do seu sepultamento. Quando a terra cobrirá a sua pele alva e o seu silêncio.
Quando o manto opaco da terra lhe oferecerá, pela primeira vez, o calor do acolhimento.
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