Está só.
Só como uma estátua secular no meio de algum bairro central.
Todos param.
Fotografam. Passam.
Ninguém conhece a sua história.
Só como um molde de mármore ocupando um lugar onde nunca se sentiu em casa.
Está só
como quem dorme enrolado em si mesmo.
Como quem beija o travesseiro à procura de respostas em coisas inanimadas.
Está só
como quem nunca engole a saliva de outro alguém.
Como quem não lambe.
Não chupa. Não beija.
Não toca.
Como quem não sabe o que é essência.
Conhece apenas a carne.
Está só
como quem sai com os amigos e não encontra ninguém.
Como quem grita para o nada
e seca uma lágrima invisível,
uma lágrima sem cor,
que desaparece antes de alcançar o lábio.
Está só
como quem entra todos os dias no mesmo vagão,
atravessa as mesmas paisagens
e regressa ao mesmo lugar.
Está só
como quem trabalha, paga as contas, compra comida e mata a fome
sem sentir o sabor do que come.
Dorme sem sonhar.
E quando sonha,
já não se lembra
do que sonhou
nem do que sentiu.
Está só
como quem toca o próprio membro até à ejaculação fria.
Sozinho.
Enquanto observa o corpo de uma mulher qualquer.
Uma desconhecida.
Um vulto.
Uma imagem emprestada para aliviar por instantes
o vácuo
que a sua solidão impõe.
Está só.
E está só porque assim escolheu ficar.
Até ao dia do seu sepultamento.
Quando a terra cobrirá a sua pele alva
e o seu silêncio.
Quando o manto opaco da terra
lhe oferecerá,
pela primeira vez,
o calor do acolhimento.
Sta. Rochaaa