Ao meu Deus Ateu

Data 01/07/2026 10:59:06 | Tópico: Poemas

Não era você.
Não era o teu beijo.

Nem o teu olhar,
nem a tua maneira desajeitada
de existir no mundo.

Não era o meu amor por ti.

Nem a minha paixão.

Não era você
com o cabelo caído sobre a face,
esse cabelo
que só em ti
se compõe
como uma máscara veneziana
e reluz negramente.

Era um corpo.

Da tua altura.

Com o teu desenho.

Com um sexo como o teu.

Mas podia ser qualquer homem.

E qualquer homem
continuaria
sem ser você.

Não era você
que puxava o meu cabelo
como quem arranca a minha alma
para a urgência
de viver,
sentir
e ser.

Nem quem me incendiava
com as mãos,
moldando-me
à vontade do teu desejo.

Não era o teu sexo
sobre mim.

Nem os teus gemidos.

Nem a tua fome.

Mas havia calor.

Um calor árido,
terrestre,
capaz de matar
o meu frio.

Não era você
que fazia de mim
a prostituta
dos teus lençóis.

Nem quem me fazia ajoelhar
sobre um tapete persa
para contemplar
o presente
que jorra
no meio do fogo.

Não era você
que borrava
o meu batom vermelho.

Nem quem mordia
a minha barriga
como se quisesse
entrar em mim
e nascer
pelo meu útero.

Não era você
que rasgava
a minha infame calcinha
e afundava os dedos
entre o meu sexo
e a minha vontade.

Nem quem arrancava
a minha roupa
e cuspia o linho
como quem cospe
o que jamais
deveria existir
entre dois corpos.

Não era a tua saliva
na minha boca.

Nem as tuas mãos
no meu pescoço.

Nem o teu leite
entre as minhas coxas.

Era alguém.

De outro gosto.

Outra pele.

Outro nome.

Mas tão deliciosamente nu
quanto tu.

Deixei-me levar.

Morri
nos braços dele.

Perdoa-me.

Porque o meu gozo contigo
é teu.

E, justamente por isso,

é nosso.

Somos danados.

Somos abençoados.

Naquele instante
tântrico,
violento
e cúmplice
em que morrer
é outra forma
de existir.

Somos
o outro
do outro.

Ainda te amo

Mas te digo adeus.

Adeus
ao meu Deus ateu.


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