Não era você.
Não era o teu beijo.
Nem o teu olhar,
nem a tua maneira desajeitada
de existir no mundo.
Não era o meu amor por ti.
Nem a minha paixão.
Não era você
com o cabelo caído sobre a face,
esse cabelo
que só em ti
se compõe
como uma máscara veneziana
e reluz negramente.
Era um corpo.
Da tua altura.
Com o teu desenho.
Com um sexo como o teu.
Mas podia ser qualquer homem.
E qualquer homem
continuaria
sem ser você.
Não era você
que puxava o meu cabelo
como quem arranca a minha alma
para a urgência
de viver,
sentir
e ser.
Nem quem me incendiava
com as mãos,
moldando-me
à vontade do teu desejo.
Não era o teu sexo
sobre mim.
Nem os teus gemidos.
Nem a tua fome.
Mas havia calor.
Um calor árido,
terrestre,
capaz de matar
o meu frio.
Não era você
que fazia de mim
a prostituta
dos teus lençóis.
Nem quem me fazia ajoelhar
sobre um tapete persa
para contemplar
o presente
que jorra
no meio do fogo.
Não era você
que borrava
o meu batom vermelho.
Nem quem mordia
a minha barriga
como se quisesse
entrar em mim
e nascer
pelo meu útero.
Não era você
que rasgava
a minha infame calcinha
e afundava os dedos
entre o meu sexo
e a minha vontade.
Nem quem arrancava
a minha roupa
e cuspia o linho
como quem cospe
o que jamais
deveria existir
entre dois corpos.
Não era a tua saliva
na minha boca.
Nem as tuas mãos
no meu pescoço.
Nem o teu leite
entre as minhas coxas.
Era alguém.
De outro gosto.
Outra pele.
Outro nome.
Mas tão deliciosamente nu
quanto tu.
Deixei-me levar.
Morri
nos braços dele.
Perdoa-me.
Porque o meu gozo contigo
é teu.
E, justamente por isso,
é nosso.
Somos danados.
Somos abençoados.
Naquele instante
tântrico,
violento
e cúmplice
em que morrer
é outra forma
de existir.
Somos
o outro
do outro.
Ainda te amo
Mas te digo adeus.
Adeus
ao meu Deus ateu.
Sta. Rochaaa