Poemas : 

Adeus ao meu Deus Ateu

 
Tags:  amor    paixão    liberdade    luxúria    liberdade poética  
 
Não era você.
Não era o teu beijo.

Nem o teu olhar,
nem a tua maneira desajeitada
de existir no mundo.

Não era o meu amor por ti.

Nem a minha paixão.

Não era você
com o cabelo caído sobre a face,
esse cabelo
que só em ti
se compõe
como uma máscara veneziana
e reluz negramente.

Era um corpo.

Da tua altura.

Com o teu desenho.

Com um sexo como o teu.

Mas podia ser qualquer homem.

E qualquer homem
continuaria
sem ser você.

Não era você
que puxava o meu cabelo
como quem arranca a minha alma
para a urgência
de viver,
sentir
e ser.

Nem quem me incendiava
com as mãos,
moldando-me
à vontade do teu desejo.

Não era o teu sexo
sobre mim.

Nem os teus gemidos.

Nem a tua fome.

Mas havia calor.

Um calor árido,
terrestre,
capaz de matar
o meu frio.

Não era você
que fazia de mim
a prostituta
dos teus lençóis.

Nem quem me fazia ajoelhar
sobre um tapete persa
para contemplar
o presente
que jorra
no meio do fogo.

Não era você
que borrava
o meu batom vermelho.

Nem quem mordia
a minha barriga
como se quisesse
entrar em mim
e nascer
pelo meu útero.

Não era você
que rasgava
a minha infame calcinha
e afundava os dedos
entre o meu sexo
e a minha vontade.

Nem quem arrancava
a minha roupa
e cuspia o linho
como quem cospe
o que jamais
deveria existir
entre dois corpos.

Não era a tua saliva
na minha boca.

Nem as tuas mãos
no meu pescoço.

Nem o teu leite
entre as minhas coxas.

Era alguém.

De outro gosto.

Outra pele.

Outro nome.

Mas tão deliciosamente nu
quanto tu.

Deixei-me levar.

Morri
nos braços dele.

Perdoa-me.

Porque o meu gozo contigo
é teu.

E, justamente por isso,

é nosso.

Somos danados.

Somos abençoados.

Naquele instante
tântrico,
violento
e cúmplice
em que morrer
é outra forma
de existir.

Somos
o outro
do outro.

Ainda te amo

Mas te digo adeus.

Adeus
ao meu Deus ateu.


Sta. Rochaaa, ou "A Dívina Comédia"

Dante.

Não eras tu, Vasco.
 
Autor
rebecarocha
 
Texto
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Enviado por Tópico
DCM_1978
Publicado: 01/07/2026 11:09  Atualizado: 01/07/2026 11:09
Da casa!
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 266
 Re: Ao meu Deus Ateu
Interessante o poema, na forma e conteúdo, abraço poético


Enviado por Tópico
uma_desconhecida
Publicado: 01/07/2026 11:53  Atualizado: 01/07/2026 11:53
Participativo
Usuário desde: 23/06/2026
Localidade:
Mensagens: 43
 Re: Ao meu Deus Ateu
Definitivamente de perder o fôlego.

Se eu gostei? Mais do que isso....absorvi o texto na minha alma.

Obrigada.

Abraço.


Enviado por Tópico
augustocola
Publicado: 02/07/2026 19:06  Atualizado: 02/07/2026 19:06
Da casa!
Usuário desde: 22/07/2008
Localidade: ES - BRASIL
Mensagens: 315
 Re: Ao meu Deus Ateu
Ufa! Esse poema é de tirar o fôlego!
Parabéns!


Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 30/07/2026 21:38  Atualizado: 30/07/2026 21:38
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 4530
 Re: Adeus ao meu Deus Ateu p/ rebecarocha
Receei o título por falar do que eu não falo, pensei que fosse outra elevação do sagrado para a qual não tenho propriamente paciência (não questiono qualidades, mas como ateu não tenho mesmo paciência). Arrisquei a leitura, a primeira e a segunda e, depois ainda, a terceira para tentar encontrar as razões pelas quais este poema me tirou todos os medos.
É, na minha modesta opinião, dos últimos que tenho lido, um hino à poesia, a todos os aspectos da poesia, porque as palavras tiveram o condão de me abraçar e não me largar.
Soberbo.

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