
Sábado, dia de matar Deus
Data 12/07/2026 10:59:42 | Tópico: Poemas
| Escolhi um sábado para matar Deus — dia de reduzida produção de milagres, propício a deambulações prístinas e epifanias avulsas. Transportei uma espingarda a tiracolo, um lençol branco, dois pregos e um caderno para anotar a hora certa do óbito; uma garrafinha de água fresca também e esperei duas horas no meio da rua, sob a canícula portuguesa.
Deus não apareceu.
Passou uma velha com um saco de maçãs. Ergui a espingarda e disparei com a mesma mão com que me benzo quando vou à igreja; a mesma mão com que desenho festinhas no cabelo das crianças.
Caiu. As maçãs rolaram longe da árvore, numa mistura de sangue e terra.
Deus não apareceu.
Ao fundo, aproximava-se outra velha.
Quantas velhas terei ainda de matar até que Deus apareça? Quantas maçãs terão ainda de rolar longe da árvore?
Qualquer filósofo mata Deus pela metafísica; qualquer poeta mata Deus pelo verso e publica livros depois. A morte física é um ofício de outra ordem: exige paciência, umas tantas velhas, alguma sabedoria e uma espingarda.
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