Escolhi um sábado
para matar Deus —
dia de reduzida produção de milagres,
propício a deambulações prístinas
e epifanias avulsas.
Transportei uma espingarda a tiracolo,
um lençol branco,
dois pregos e um caderno
para anotar a hora certa do óbito;
uma garrafinha de água fresca
também
e esperei duas horas no meio da rua,
sob a canícula portuguesa.
Deus não apareceu.
Passou uma velha
com um saco de maçãs.
Ergui a espingarda
e disparei com a mesma mão
com que me benzo quando vou à igreja;
a mesma mão com que desenho festinhas
no cabelo das crianças.
Caiu.
As maçãs rolaram
longe da árvore,
numa mistura de sangue e terra.
Deus não apareceu.
Ao fundo, aproximava-se outra velha.
Quantas velhas
terei ainda de matar
até que Deus apareça?
Quantas maçãs terão ainda de rolar
longe da árvore?
Qualquer filósofo mata Deus
pela metafísica;
qualquer poeta mata Deus
pelo verso
e publica livros depois.
A morte física é um ofício
de outra ordem:
exige paciência, umas tantas velhas,
alguma sabedoria
e uma espingarda.