O mito do "tudo pode" na poesia

Data 01/08/2026 04:08:13 | Tópico: Artigos

Há uma ideia confortável em circulação: a de que a poesia, por depender da experiência do leitor, lhe pertenceria inteiramente e, por isso, qualquer arranjo de palavras que alguém acolha como poema já bastaria para sê-lo. É uma crença que dispensa o trabalho porque dispensa o critério. Por isso encontra tantos adeptos entre aqueles que jamais precisaram responder por que um verso permanece na memória enquanto outro apenas interrompe a margem da página.

Nessa posição confundem-se duas ordens distintas. A experiência da leitura é irredutivelmente singular; cada leitor atravessa um poema à sua maneira. O juízo sobre essa experiência, porém, não se reduz a ela. Perguntar se um texto sustenta poeticamente aquilo que provoca é outra questão. É a esfera em que Pound reconhecia a melopeia, a fanopeia e a logopeia como operações da linguagem, passíveis de exame, e não como impressões privadas. Um vinho avinagrado continua produzindo sabor. Nem por isso deixa de ser vinho perdido.

Se tudo pudesse ser poesia, a palavra "poesia" perderia sua razão de existir. Conceitos não servem para abolir diferenças, mas para torná-las inteligíveis. Se qualquer texto pudesse receber o mesmo nome, já não haveria o que ensinar, nem o que aprender; apenas preferências individuais ocupando o lugar do juízo crítico.

Resta uma constatação. Quem afirma que tudo pode ser poema dificilmente consegue explicar por que um poema é superior a outro. E, no instante em que tenta fazê-lo, recorre inevitavelmente a critérios. Nesse momento, sua tese já não se sustenta.


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