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O mito do "tudo pode" na poesia

 
Poucas ideias são tão sedutoras quanto a de que tudo pode ser poesia, entendida aqui não como categoria estética abstrata, mas como sua realização verbal: o poema. Ela absolve o texto de qualquer exigência formal e transfere ao leitor toda a responsabilidade pelo acontecimento estético. Se basta que alguém reconheça um poema para que ele exista, já não há distinção entre construção e impressão, nem razão para falar em aprendizado.

Nessa posição confundem-se duas ordens distintas. A experiência da leitura é irredutivelmente singular; cada leitor atravessa um poema à sua maneira. O juízo sobre essa experiência, porém, não se reduz a ela. Perguntar se um texto sustenta poeticamente aquilo que provoca é outra questão. É a esfera em que Pound reconhecia a melopeia, a fanopeia e a logopeia como operações da linguagem, passíveis de exame, e não como impressões privadas. Um vinho avinagrado continua produzindo sabor. Nem por isso deixa de ser vinho perdido.

Se tudo pudesse ser poesia, a palavra "poesia" perderia sua razão de existir. Conceitos não servem para abolir diferenças, mas para torná-las inteligíveis. Se qualquer texto pudesse receber o mesmo nome, já não haveria o que ensinar, nem o que aprender; apenas preferências individuais ocupando o lugar do juízo crítico.

Resta uma constatação. Quem afirma que tudo pode ser poema dificilmente consegue explicar por que um poema é superior a outro. E, no instante em que tenta fazê-lo, recorre inevitavelmente a critérios. Nesse momento, sua tese já não se sustenta.

 
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luscaluiz
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Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 03/08/2026 09:06  Atualizado: 03/08/2026 09:06
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
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 Re: O mito do "tudo pode" na poesia p/ luscaluiz
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Então, caro Lucas, partilhe connosco o que, para si, define a "verdadeira" poesia.


Enviado por Tópico
Azke
Publicado: 03/08/2026 18:08  Atualizado: 03/08/2026 18:08
Super Participativo
Usuário desde: 23/04/2026
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 Re: O mito do "tudo pode" na poesia
Discordo. Totalmente. A poesia é sim, um parâmetro aceitável em qualquer modo de sua criação. Não existe um modelo categórico de a realizar (a poesia). Não existe uma fórmula. Não existe uma lei.
O que torna a poesia em sua profunda beleza é simplesmente, a liberdade de se ajustar em qualquer modo de dita-la (a poesia).
Muito embora também, hajam os críticos, por exemplo, alguns letrados que não "gostam" ou diferem de algum ou outro "sentimentalismo" ali (ui),
pré-existente (na poesia), ainda assim, se faz presente o seu valor, ainda que por vezes, discutível,sob o ponto de vista desses críticos, enfim.
Agora, não se pode dizer que a poesia é algo que precisa de uma direção exata, quando em sua formação.
Tudo pode, na poesia. Desde que haja, é claro, algum talento.
Não é somente "achar-se" doutor da língua", que faz o tal do "poeta".







Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 03/08/2026 19:43  Atualizado: 03/08/2026 19:43
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 4525
 Re: O mito do "tudo pode" na poesia p/ luscaluiz
Há textos bons e textos maus, livros bons e livros maus e há as fronteiras de uns que não são de outros. Devo reconhecer que a razão, até certa medida, se escreve pelas tuas palavras, e não escrevo "até certa medida" inocentemente, faço-o porque reconheço alguma razão noutras ideias, de que a poesia é abrangente (embora não seja tudo, tudo é demais, tudo é perfeito e isso não existe).

Define-se poesia nos dicionários 1. Arte de fazer obras em verso. 2. Género de composição poética, geralmente em verso. 3. Conjunto das obras em verso existentes numa língua. 4. Composição poética pouco extensa. 5. Maneira de fazer versos, particular a um autor, a um povo, a uma época, a uma escola literária (ex.: poesia portuguesa; poesia renascentista). 6. Qualidade dos versos.
7. Inspiração. 8. Elevação de ideias. 9. O que desperta o sentimento do belo ("poesia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-pt/poesia.)

Desta definição destaco e sublinho dois items, o 1º e o 9º e questiono: Todos os que aqui escrevem se sentem/consideram artistas? Todos os que aqui escrevem têm a mesma noção de belo?

A poesia não é um Mundo sem fronteiras, essas são definidas por cada um que escreve, e apesar de ninguém ter o direito de as deitar abaixo, todos têm o dever de saber criticá-las.

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