As Mulheres de Federico Arens

Data 07/08/2026 20:00:34 | Tópico: Poemas

Passa de negro junto ao The Bold Octopus,
num fremir acidental,
no ar um olor a coroa fúnebre
(jasmim, talvez violeta?),
todo o estio no frufru dócil
das pernas que se roçam,
mansamente, uma na outra.
A lagoa para de respirar no rumor das guelras
sob a água, e os caranguejos suspendem
a marcha oblíqua entre o funcho
e as figueiras bravas, falsamente morrentes;
ou talvez seja só o verão
a exagerar nas coisas mais belas,
levando o espírito a abandonar-se
e a inventar coisas que jamais existiram,
para ocupar a ausência do ruído de sempre
da cidade, das fábricas, das lojas
e das brincadeiras das crianças.

Imagino que se chama Catarina,
ou Catherine
(e vejo-a a abrir a boca para me dizer o nome:
Ca-ta-ri-na,
ou Cath-ri-ne,
consoante a língua da fantasia),
e que venha de uma cidade interior
de geografia incerta,
pomba que trocou o norte
pelo calor mais a sul.

Traz consigo, num saquinho,
A Summer That Forgot Itself,
obra esquecida de Mark Twain,
e ainda um outro volume
de Federico Arens,
escritor argentino
desconhecido fora dos circuitos eruditos,
que consumiu sete romances a tentar entender
por que razão os homens não abandonam
a geografia interior em que nascem.
Em cada um desses romances
passa uma mulher vestida de negro,
cheirando a jasmim, talvez violeta.
O mais recente,
que transporta também no saquinho,
Estoy aquí, pero no por mucho tiempo,
narra a vida de um apicultor
que morre infetado pela mordedura
de um cão chamado Funeral,
e não passa de um equívoco
em forma de livro.
Ainda assim,
terá granjeado o prémio literário
de uma cidade interior
de geografia incerta.

E ela passa de negro
junto ao The Bold Octopus,
deixando na sua esteira
o olor de um verão fúnebre,
uma lagoa desrumorada.

Talvez lhe chame Cat,
para não errar.



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