
A Summer That Forgot Itself
Data 10/08/2026 22:01:58 | Tópico: Poemas
| Pedi a Catarina em casamento depois de pousar o guardanapo de pano, dobrando-o num quadrado perfeito. Pensara fazê-lo em Roma, ou nas águas da Sardenha ou da Sicília, mas a minha atual condição de desempregado nem sequer o restaurante de vinho e tapas permitiu reservar — aquele cuja luz tépida esconde os problemas de dicção do empregado de mesa e que frequentamos entre abandonos e reencontros.
Talvez o meu LinkedIn pareça promissor depois do workshop de mindfulness, do curso de inteligência emocional e da formação em inteligência artificial financiada pela União Europeia. Com o tempo, o vinho do restaurante amadurecerá um pouco mais nas profundezas das pipas de carvalho, as tapas alcançarão a perfeição com o labor e o tempo que as freiras reservavam aos doces do convento, e, um dia, Itália aparecerá no horizonte de um avião da Ryanair.
Celebrámos, enfim, sentados na tijoleira da sala, a colar fotografias daquilo a que chamamos amor: rostos, viagens, lapas e miosótis, ruínas, praias e faróis, montanhas e esquilos — pedaços e pedacinhos da nossa história.
Na manhã seguinte, deixou a casa sem aviso e nunca mais soube dela.
Levou o seu livro preferido de Mark Twain, um pequenino e quase desconhecido chamado A Summer That Forgot Itself, e o último volume de Federico Arens, autor argentino, Estoy aquí, pero no por mucho tiempo, que narra a vida de um apicultor morto pela mordedura infetada de um cão chamado Funeral.
Todo um verão perdido. Talvez mais do que um verão perdido, Cat.
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