Pedi a Catarina em casamento
depois de pousar o guardanapo de pano,
dobrando-o num quadrado perfeito.
Pensara fazê-lo em Roma,
ou nas águas da Sardenha ou da Sicília,
mas a minha atual
condição de desempregado
nem sequer o restaurante de vinho e tapas
permitiu reservar —
aquele cuja luz tépida
esconde os problemas
de dicção do empregado de mesa
e que frequentamos
entre abandonos e reencontros.
Talvez o meu LinkedIn pareça promissor
depois do workshop de mindfulness,
do curso de inteligência emocional
e da formação em inteligência artificial
financiada pela União Europeia.
Com o tempo, o vinho do restaurante
amadurecerá um pouco mais
nas profundezas das pipas de carvalho,
as tapas alcançarão a perfeição
com o labor e o tempo
que as freiras reservavam
aos doces do convento,
e, um dia, Itália
aparecerá no horizonte
de um avião da Ryanair.
Celebrámos, enfim,
sentados na tijoleira da sala,
a colar fotografias
daquilo a que chamamos amor:
rostos, viagens, lapas e miosótis,
ruínas, praias e faróis,
montanhas e esquilos
— pedaços e pedacinhos
da nossa história.
Na manhã seguinte,
deixou a casa sem aviso
e nunca mais soube dela.
Levou o seu livro
preferido de Mark Twain,
um pequenino e quase desconhecido
chamado A Summer That Forgot Itself,
e o último volume
de Federico Arens, autor argentino,
Estoy aquí, pero no por mucho tiempo,
que narra a vida de um apicultor
morto pela mordedura infetada
de um cão chamado Funeral.
Todo um verão perdido.
Talvez mais do que um verão perdido, Cat.