
Las Mujeres Que Sangran Todos Los Días
Data 12/08/2026 08:18:40 | Tópico: Poemas
| Li o meu primeiro volume de Federico Arens numa viagem à Argentina. O papá ia em negócio de armações de óculos e quis, contra todos os cânones, levar-me a mim e à mamã num tour pela Patagónia.
Celebrei os dezassete anos num catamarã ventoso, sem paciência para glaciares, cordilheiras e vistas panorâmicas, e muito menos para fotografias de famílias felizes enfiadas em roupas polares. A mamã enjoava a cada balanço da embarcação e o papá discutia materiais e dobradiças de armações com o representante de Córdoba, que usava óculos pequenos demais para a largura do rosto.
Encontrei o livro de Arens, a quem as revistas da especialidade chamavam o Mark Twain das Pampas, num alfarrabista de La Plata, entre um manual de apicultura e uma edição do Livro dos Seres Imaginários, de Borges, ilustrada por crianças de um concurso que passava na televisão ao sábado à noite. O romance chamava-se Las mujeres que sangran todos los días e escolhi-o pela atração que sentia pelo sangue, pelos comportamentos desviantes e por tudo aquilo que desagradava à mamã. No livro, o terceiro do autor, Arens procurava estabelecer leis comuns à circulação do sangue das mulheres e à geografia interior dos homens. No final, acrescentava um caderno com teorias hematológicas e estudos de uma investigadora da Universidade de Buenos Aires sobre símios que, após longas migrações, regressavam ao lugar onde haviam nascido.
— Catarina, a menina acha mesmo que esse livro é para si? — perguntava a mamã. Era o género de perguntas que concediam às minhas decisões a firmeza que lhes faltava quando ainda nasciam com medo dentro de mim.
Li-o quase todo nessa noite, no quarto de um hotel sobre um restaurante de luz tépida, onde nos serviu o Rogério, português de Baião com claros problemas de dicção, que mancava enquanto equilibrava uma bandeja prateada pejada de copos com cerveja, vinho e vermute. Enquanto o papá discutia armações e dobradiças com o representante de Córdoba e a mamã, embalada pela neblina do Xanax, dormia profundamente no quarto ao lado, resolvi fazer de Arens o meu objeto de estudo, ainda que não compreendesse muito bem, na altura, o que isso queria dizer.
Pela janela entrava o olor das flores do parque: jasmim, talvez violeta.
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