Poemas : 

Las Mujeres Que Sangran Todos Los Días

 
Li o meu primeiro volume
de Federico Arens numa viagem
à Argentina. O papá ia em negócio
de armações de óculos
e quis, contra todos os cânones,
levar-me a mim e à mamã num tour
pela Patagónia.

Celebrei os dezassete anos
num catamarã ventoso,
sem paciência para glaciares,
cordilheiras e vistas panorâmicas,
e muito menos para fotografias
de famílias felizes enfiadas
em roupas polares.
A mamã enjoava a cada
balanço da embarcação
e o papá discutia materiais
e dobradiças de armações
com o representante de Córdoba,
que usava óculos pequenos demais
para a largura do rosto.

Encontrei o livro de Arens,
a quem as revistas da especialidade
chamavam o Mark Twain das Pampas,
num alfarrabista de La Plata,
entre um manual de apicultura
e uma edição do Livro dos Seres Imaginários,
de Borges, ilustrada por crianças
de um concurso que passava
na televisão ao sábado à noite.
O romance chamava-se
Las mujeres que sangran todos los días
e escolhi-o pela atração
que sentia pelo sangue,
pelos comportamentos desviantes
e por tudo aquilo
que desagradava à mamã.
No livro, o terceiro do autor,
Arens procurava estabelecer
leis comuns à circulação
do sangue das mulheres
e à geografia interior dos homens.
No final, acrescentava um caderno
com teorias hematológicas
e estudos de uma investigadora
da Universidade de Buenos Aires
sobre símios que, após longas migrações,
regressavam ao lugar
onde haviam nascido.

— Catarina, a menina acha mesmo
que esse livro é para si? —
perguntava a mamã.
Era o género de perguntas
que concediam às minhas decisões
a firmeza que lhes faltava
quando ainda nasciam com medo
dentro de mim.

Li-o quase todo nessa noite,
no quarto de um hotel
sobre um restaurante de luz tépida,
onde nos serviu o Rogério,
português de Baião
com claros problemas de dicção,
que mancava enquanto equilibrava
uma bandeja prateada
pejada de copos
com cerveja, vinho e vermute.
Enquanto o papá discutia
armações e dobradiças
com o representante de Córdoba
e a mamã, embalada
pela neblina do Xanax,
dormia profundamente
no quarto ao lado,
resolvi fazer de Arens
o meu objeto de estudo,
ainda que não compreendesse
muito bem, na altura,
o que isso queria dizer.

Pela janela entrava o olor
das flores do parque:
jasmim, talvez violeta.

 
Autor
Levant
Autor
 
Texto
Data
Leituras
23
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
2 pontos
0
1
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Links patrocinados