
As Mulheres Inaptas Para a Felicidade
Data 16/08/2026 13:49:55 | Tópico: Poemas
| Dele, apenas me interessa sexo, confessaria Natália naquela tarde pardacenta. Não quero saber do dinheiro, da fábrica de têxteis nem do negócio de armações. E digo-lhe: Gregory, só me interessas pelo sexo. Ele sorri, com aquele ar muito british, e responde: Claro que sim, my darling. O amor romântico não foi criado para mulheres como nós, acrescenta Natália, enquanto a piscina solta pequenas bolhas do fundo de azulejo bege. O mar de Moledo espreguiça-se no horizonte e os copos acumulam-se sobre o mármore de Carrara.
Li num livro que a felicidade é determinada pela biologia. Não somos responsáveis por ela. Nunca fomos. O destino precede-nos. Não há nada que eu possa fazer por mim, afirma Natália, fechando os olhos quando um fio de sol lhe atravessa o rosto. Está tudo no sangue. No fim do livro há um caderno chamado Teorias hematológicas. Foi a minha filha Catarina que o comprou, há muitos anos, quando fomos à Patagónia. O livro é de um tal Federico Arens. Federico. Como o meu irmão padre. De batismo, Frederico. O meu pai dizia Federico. E ficou Federico. A minha mãe odiava-o. E odiava-o tanto que escolheu um nome que ele não pudesse pronunciar. Imagina, Rita: o nome do filho era-lhe impronunciável. Cada vez que o meu pai o chamava, expunha-se a uma pequena humilhação: à mesa, na rua, nas festas. Está tudo no sangue. As mulheres da família são inaptas para a felicidade e distraem-se da passagem do tempo com encenações, maldadezinhas, ressentimentos.
O que pensas disto tudo, Rita? Ergo o copo de vinho branco, já morno, e ensaio um aplauso, como se assistisse a uma tragédia grega menor. De formas diferentes, ambas fracassamos: um fracasso com vinho branco sobre mármore de Carrara e a praia de Moledo por cenário.
Pensei, Natália, que talvez tivesse sido melhor que os nossos antepassados nunca tivessem deixado o mar.
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