Dele, apenas me interessa sexo,
confessaria Natália naquela tarde pardacenta.
Não quero saber do dinheiro,
da fábrica de têxteis
nem do negócio de armações.
E digo-lhe: Gregory, só me interessas
pelo sexo. Ele sorri, com aquele ar
muito british, e responde: Claro que sim,
my darling. O amor romântico não foi criado
para mulheres como nós, acrescenta Natália,
enquanto a piscina solta pequenas bolhas
do fundo de azulejo bege.
O mar de Moledo espreguiça-se no horizonte
e os copos acumulam-se sobre o mármore de Carrara.
Li num livro que a felicidade
é determinada pela biologia.
Não somos responsáveis por ela. Nunca fomos.
O destino precede-nos. Não há nada
que eu possa fazer por mim, afirma Natália,
fechando os olhos quando um fio de sol
lhe atravessa o rosto. Está tudo no sangue.
No fim do livro há um caderno
chamado Teorias hematológicas.
Foi a minha filha Catarina que o comprou,
há muitos anos, quando fomos à Patagónia.
O livro é de um tal Federico Arens.
Federico. Como o meu irmão padre.
De batismo, Frederico.
O meu pai dizia Federico. E ficou Federico.
A minha mãe odiava-o.
E odiava-o tanto que escolheu um nome
que ele não pudesse pronunciar.
Imagina, Rita: o nome do filho
era-lhe impronunciável.
Cada vez que o meu pai o chamava,
expunha-se a uma pequena humilhação:
à mesa, na rua, nas festas.
Está tudo no sangue. As mulheres
da família são inaptas para a felicidade
e distraem-se da passagem do tempo
com encenações, maldadezinhas,
ressentimentos.
O que pensas disto tudo, Rita?
Ergo o copo de vinho branco, já morno,
e ensaio um aplauso, como se assistisse
a uma tragédia grega menor.
De formas diferentes, ambas fracassamos:
um fracasso com vinho branco
sobre mármore de Carrara
e a praia de Moledo por cenário.
Pensei, Natália, que talvez
tivesse sido melhor
que os nossos antepassados
nunca tivessem deixado o mar.