Eva

Data 17/08/2026 10:48:52 | Tópico: Poemas

Eva amava ter família. Tinha nascido no meio do barulho de uma família de cinco tios e cinco tias. Tinha tantos primos com quem brincar que, às vezes, o silêncio da vida adulta lhe causava espanto.

Os avós e os tios falavam alto e cantavam alto, como se fossem alentejanos.

Lembrava-se de quando era criança e corria pelo jardim da casa da avó. Ela e as primas brincavam de ser princesas de algum reino encantado. Sonhavam também em ter uma família quando fossem grandes. Viam as falhas do avô com a avó e, obviamente, não queriam aquilo. Mas queriam aquela sensação de pertencimento.

De todas as primas, Eva era a mais esquisita. Era fofa e linda, mas parecia um menino. Brincava como se o mundo fosse acabar e não ligava para roupas, modos ou regras. Era, no entanto, muito doce e afetuosa.

Amava também deitar-se na rede da casa da avó e ouvir as suas histórias de embalar.

Aquela menina, naquela família, tinha, sem dúvida, uma personagem principal e preferida: a avó Miriam.

Filha de Libases cristãos, Miriam casara-se com o avô aos catorze anos e tivera onze filhos, um deles a mãe de Eva.

Miriam nunca tinha andado de avião. Não tinha terminado o colegial. Não tinha sequer realizado metade dos seus sonhos. Talvez, naquela época, o maior sonho de alguém fosse casar-se e ter uma família daquelas.

Eva não sabia.

Miriam era muito habilidosa em acalentar os netos, em dar amor e em manter a família unida.

E de que adiantam as outras habilidades, não é mesmo?

Talvez, para Miriam, aquelas fossem suficientes.

Miriam deu ao mundo onze partes de si. E dessas onze partes vieram tantos netos.

Eva pensava: como é possível uma única pessoa deixar tantas partes de si espalhadas pelo mundo? E quanto daquela mulher ainda existia em cada um deles?

Quanto daquela amada avó existia nela?

Era tanto.

Tanto amor.

Já adulta, Eva não era nada parecida com a menina que a avó tinha deixado para o mundo — pelo menos não naquilo que ficava exposto.

Era mais reservada e nada barulhenta. Tinha poucos amigos. Já não sonhava tanto em ser princesa. Estava mais para bruxa.

E, nessa parte, talvez não se parecesse com a avó. Havia nela uma espécie de falta de convicção em ser aquilo que esperavam dela. Uma recusa silenciosa em cumprir o papel que lhe tinha sido destinado.

Eva era assim: uma parte continuada de duas gerações.

Uma parte de Miriam.

Uma parte da menina que corria pelo jardim.

Uma parte de tudo aquilo que a família tinha sido.

E, ainda assim,

uma parte dela mesma.

Só dela.

Eva era assim.



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