Eva amava ter família. Tinha nascido no meio do barulho de uma família de cinco tios e cinco tias. Tinha tantos primos com quem brincar que, às vezes, o silêncio da vida adulta lhe causava espanto.
Os avós e os tios falavam alto e cantavam alto, como se fossem alentejanos.
Lembrava-se de quando era criança e corria pelo jardim da casa da avó. Ela e as primas brincavam de ser princesas de algum reino encantado. Sonhavam também em ter uma família quando fossem grandes. Viam as falhas do avô com a avó e, obviamente, não queriam aquilo. Mas queriam aquela sensação de pertencimento.
De todas as primas, Eva era a mais esquisita. Era fofa e linda, mas parecia um menino. Brincava como se o mundo fosse acabar e não ligava para roupas, modos ou regras. Era, no entanto, muito doce e afetuosa.
Amava também deitar-se na rede da casa da avó e ouvir as suas histórias de embalar.
Aquela menina, naquela família, tinha, sem dúvida, uma personagem principal e preferida: a avó Miriam.
Filha de Libases, Miriam casara-se com o avô aos catorze anos e tivera onze filhos, um deles a mãe de Eva.
Miriam nunca tinha andado de avião. Não tinha terminado o colegial. Não tinha sequer realizado metade dos seus sonhos. Talvez, naquela época, o maior sonho de alguém fosse casar-se e ter uma família daquelas.
Eva não sabia.
Miriam era muito habilidosa em acalentar os netos, em dar amor e em manter a família unida.
E de que adiantam as outras habilidades, não é mesmo?
Talvez, para Miriam, aquelas fossem suficientes.
Miriam deu ao mundo onze partes de si. E dessas onze partes vieram tantos netos.
Eva pensava: como é possível uma única pessoa deixar tantas partes de si espalhadas pelo mundo? E quanto daquela mulher ainda existia em cada um deles?
Quanto daquela amada avó existia nela?
Era tanto.
Tanto amor.
Já adulta, Eva não era nada parecida com a menina que a avó tinha deixado para o mundo — pelo menos não naquilo que ficava exposto.
Era mais reservada e nada barulhenta. Tinha poucos amigos. Já não sonhava tanto em ser princesa. Estava mais para bruxa.
E, nessa parte, talvez não se parecesse com a avó. Havia nela uma espécie de falta de convicção em ser aquilo que esperavam dela. Uma recusa silenciosa em cumprir o papel que lhe tinha sido destinado.
Eva era assim: uma parte continuada de duas gerações.
Uma parte de Miriam.
Uma parte da menina que corria pelo jardim.
Uma parte de tudo aquilo que a família tinha sido.
E, ainda assim,
uma parte dela mesma.
Só dela.
Eva era assim.
Sta. Rochaaa.