Matéria Pretérita

Data 06/09/2026 17:41:39 | Tópico: Poemas


não me interessa a verdade
quando chega depois.

há nela uma elegância tardia,
um modo quase perfeito
de não encontrar ninguém em casa.

prefiro o vestígio inexato,
a sílaba que não conseguiu
obedecer à versão seguinte.

alguma coisa sempre sobra
do lado de fora do relato.

talvez um gesto.

nem mesmo o gesto
a direção que tomou
quando ainda não sabia
que seria lembrado.

o passado tem essa vulgaridade
aconteceu uma vez
e não melhora com estilo.

podemos mudar-lhe a boca,
corrigir a luz,
retirar da cena o que constrange.

o requinte está
em contar a queda
sem a altura.

ninguém pergunta
quem escolheu a janela.


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