não me interessa a verdade
quando chega depois.
há nela uma elegância tardia,
um modo quase perfeito
de não encontrar ninguém em casa.
prefiro o vestígio inexato,
a sílaba que não conseguiu
obedecer à versão seguinte.
alguma coisa sempre sobra
do lado de fora do relato.
talvez um gesto.
nem mesmo o gesto
a direção que tomou
quando ainda não sabia
que seria lembrado.
o passado tem essa vulgaridade
aconteceu uma vez
e não melhora com estilo.
podemos mudar-lhe a boca,
corrigir a luz,
retirar da cena o que constrange.
o requinte está
em contar a queda
sem a altura.
ninguém pergunta
quem escolheu a janela.