
carviçais
Data 14/09/2026 20:30:52 | Tópico: Poemas
| volto a carviçais quando o verão se cansa de agosto por vezes setembro adentro curvo a serra no toyota corolla que foi da mãe deixo o pocinho para trás e chego devagar à estação dos comboios fechada em mil novecentos e oitenta e oito não tenho memória de comboios mas lembro-me de uma mulher chamada inácia que falava deles e das suas galinhas a picar a linha e também de dizer que o meu avô tinha mau feitio que o meu avô tinha maus fígados só mais tarde percebi que o meu avô não tinha mau feitio que o meu avô não tinha maus fígados que o meu avô era cruel mau feitio e maus fígados foram os nomes que a família deu para não dizer a verdade as boas famílias fazem as pazes com os mortos sentenciava a tia-avó ricarda sentada na soleira com todos os mortos insistia nenhum morto fica de fora nem sozinho na terra escura felizmente com o passar dos anos os mortos melhoram o feitio acrescentava e trezentos ou quatrocentos anos depois de morrerem tornam-se santos ou anjos paro o toyota na estação cumprimento o senhor manel do restaurante encostado ao sol do outro lado da rua ainda se lembra de mim ainda se lembra de toda a gente não esquece ninguém fundos olhos azuis em camisa negra o azul desbotado da casa do lado é o mesmo a mediadora imobiliária vai mudando esta chama-se eloísa qualquer coisa uma mulher bonita com um colar de pérolas de braços cruzados sobre a blusa marfim não sei se a minha família abandonou carviçais ou se carviçais abandonou a minha família a tia-avó ricarda quis ficar para trás talvez por isso ainda viva nas paredes da casa talvez regue couves nas horas mais quentes do verão e estenda roupa colorida nas cordas da cerejeira velha talvez abra a porta da cozinha quando ninguém olha e atravesse o quintal como antes atravessava há pessoas que morrem e há outras que apenas deixam de ser vistas lembro-me de a ver cortar o pão ainda quente contra o peito com uma faca escura de me mandar buscar tomates à horta lembro-me das moscas na cozinha dos copos virados sobre um pano às riscas vermelhas e brancas e de toda a gente falar alto havia sempre alguém que dormia num quarto em penumbra enquanto outros discutiam quem tinha ficado com uma terra e quem devia dinheiro a quem e quem trocou carviçais pelo litoral ou pelo estrangeiro eu não percebia desses assuntos e preferia comer maçãs verdes à sombra da cerejeira velha lembro-me da tia-avó ricarda chamar por mim ao fim da tarde primeiro pelo nome pequeno depois pelo nome inteiro depois aos gritos e finalmente por todos os santos começando por são lourenço lembro-me de dormir com a janela aberta dos cães a latir de uma mota a atravessar a aldeia dos sinos que de manhã tocavam dentro do quarto e dentro dos sonhos
não voltarei a carviçais quando o verão se cansa findo agosto por vezes setembro adentro por muitos anos mais não curvarei a serra no toyota que foi da mãe não deixarei o pocinho para trás e não chegarei devagar à estação dos comboios fechada em mil novecentos e oitenta e oito terei vaga memória de uma mulher cujo nome começava por i a dizer que o avô tinha mau feitio que o avô tinha maus fígados o senhor manel do restaurante será apenas uma cruz e a mediadora imobiliária uma mulher com um colar de pérolas depois nem isso os mortos da família estarão quase santos ou quase anjos mesmo o avô e um dia alguém dirá carviçais e eu já não saberei de que lugar se fala ou talvez nem haja ninguém que diga carviçais
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