Poemas : 

carviçais

 
volto a carviçais
quando o verão se cansa
de agosto
por vezes setembro adentro
curvo a serra no toyota corolla
que foi da mãe
deixo o pocinho para trás
e chego devagar
à estação dos comboios
fechada em
mil novecentos e oitenta e oito
não tenho memória de comboios
mas lembro-me de uma mulher chamada inácia
que falava deles
e das suas galinhas a picar a linha
e também de dizer
que o meu avô tinha mau feitio
que o meu avô tinha maus fígados
só mais tarde percebi
que o meu avô não tinha mau feitio
que o meu avô não tinha maus fígados
que o meu avô era cruel
mau feitio e maus fígados
foram os nomes que a família deu
para não dizer a verdade
as boas famílias fazem as pazes com os mortos
sentenciava a tia-avó ricarda
sentada na soleira
com todos os mortos
insistia
nenhum morto fica de fora
nem sozinho na terra escura
felizmente
com o passar dos anos
os mortos melhoram o feitio
acrescentava
e trezentos ou quatrocentos anos
depois de morrerem
tornam-se santos ou anjos
paro o toyota na estação
cumprimento o senhor manel do restaurante
encostado ao sol
do outro lado da rua
ainda se lembra de mim
ainda se lembra de toda a gente
não esquece ninguém
fundos olhos azuis
em camisa negra
o azul desbotado da casa do lado é o mesmo
a mediadora imobiliária vai mudando
esta chama-se eloísa qualquer coisa
uma mulher bonita com um colar de pérolas
de braços cruzados
sobre a blusa marfim
não sei se a minha família abandonou carviçais
ou se carviçais abandonou a minha família
a tia-avó ricarda quis ficar para trás
talvez por isso ainda viva
nas paredes da casa
talvez regue couves
nas horas mais quentes do verão
e estenda roupa colorida
nas cordas da cerejeira velha
talvez abra a porta da cozinha
quando ninguém olha
e atravesse o quintal
como antes atravessava
há pessoas que morrem
e há outras que apenas deixam
de ser vistas
lembro-me de a ver cortar o pão
ainda quente
contra o peito
com uma faca escura
de me mandar buscar tomates à horta
lembro-me das moscas na cozinha
dos copos virados sobre um pano
às riscas vermelhas e brancas
e de toda a gente falar alto
havia sempre alguém que dormia
num quarto em penumbra
enquanto outros discutiam
quem tinha ficado com uma terra
e quem devia dinheiro a quem
e quem trocou carviçais
pelo litoral ou pelo estrangeiro
eu não percebia desses assuntos
e preferia comer maçãs verdes
à sombra da cerejeira velha
lembro-me da tia-avó ricarda chamar por mim
ao fim da tarde
primeiro pelo nome pequeno
depois pelo nome inteiro
depois aos gritos
e finalmente por todos os santos
começando por são lourenço
lembro-me de dormir com a janela aberta
dos cães a latir
de uma mota a atravessar a aldeia
dos sinos que de manhã
tocavam dentro do quarto
e dentro dos sonhos

não voltarei a carviçais
quando o verão se cansa
findo agosto
por vezes setembro adentro
por muitos anos mais
não curvarei a serra no toyota
que foi da mãe
não deixarei o pocinho para trás
e não chegarei devagar
à estação dos comboios
fechada em
mil novecentos e oitenta e oito
terei vaga memória
de uma mulher cujo nome começava por i
a dizer
que o avô tinha mau feitio
que o avô tinha maus fígados
o senhor manel do restaurante será apenas uma cruz
e a mediadora imobiliária
uma mulher com um colar de pérolas
depois nem isso
os mortos da família
estarão quase santos
ou quase anjos
mesmo o avô
e um dia alguém dirá carviçais
e eu já não saberei
de que lugar se fala
ou talvez nem haja ninguém
que diga carviçais

 
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Levant
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 16/09/2026 06:13  Atualizado: 16/09/2026 06:13
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 2452
 Re: carviçais
Por acaso (juro!), tenho também um Corolla, mas que era do meu Pai.

Onde tens carviçais eu podia escrever rapadoura...

Escreves bem pra caramba, pá!

Abraço


Enviado por Tópico
idália
Publicado: 16/09/2026 13:17  Atualizado: 16/09/2026 13:17
Membro de honra
Usuário desde: 08/06/2023
Localidade:
Mensagens: 983
 Re: carviçais
.

Belíssimo texto, daqueles que leio e releio, porque há neles aquela verdade, aquela precisão emocional que admiro e me faz voltar. Trata-se de um território íntimo, mas fiquei com aquela sensação de reconhecer um lugar que não é meu. Revivi amigos e colegas dos bons velhos tempos, que tinham nessa região as suas raízes.

Desejo que volte a Carviçais "por muitos anos mais" e que haja sempre alguém que diga Carviçais.

Abraço

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