
Poesia de volume
Data 20/09/2026 21:28:09 | Tópico: Poemas
| Em outubro de 2019, conheci um poeta esloveno durante uma conferência de poesia num hotel em frente ao mar, na Ericeira. Chamava-se Miha Kovačnik e disse-me que vendia poemas em série. Perguntei-lhe em que quantidades os vendia. Em lotes de vinte, de cinquenta e de cem, respondeu. Por vezes, lotes de duzentos. Vestia camisa branca, ténis verdes e levava ao pescoço um cartão que dizia Poet, High-Volume Poetry Specialist. Naquela manhã, falara durante uma hora sobre musgo, maçanetas e montras na poesia e sobre a importância de não termos medo de atravessar a nossa própria vida. Uma mulher de Anadia chorou na fila da frente. Ao almoço ficámos lado a lado. Havia peixe, batatas pequenas, vinho branco e uma saladinha numa tigela de metal. Perguntei-lhe como se escreviam tantos poemas. Disse-me que não se pensa muito. Depois explicou que tinha poemas prontos para mães, para crianças, para gente que partia, para as várias horas do dia, para o mar, para a floresta, para a saudade, e também alguns muito específicos para escritores inventados, mulheres sozinhas, aldeias esquecidas, famílias disfuncionais, cães invisíveis e poetas mortos. Mudava apenas um nome, uma rua ou uma árvore. Por vezes nem a árvore mudava. Há árvores, disse, que servem para toda a gente; oliveiras e cerejeiras, por exemplo. À tarde encontrei-o sentado do lado de fora do hotel, sem o cartão ao pescoço. Fumava, apesar de ter dito antes que deixara de fumar. Sentei-me também. O mar via-se entre dois prédios, uma faixa azul imensa. Perguntei-lhe se alguma vez tinha demorado muito tempo a escrever um poema. Sim, disse. Um. Perguntei-lhe quanto tempo demorou. Três anos. O meu pai morreu, disse, e comecei um poema que ainda não acabei. Miha fumou até ao filtro e depois contou-me que o pai trabalhara durante quarenta anos numa fábrica de automóveis e motores em Tezno, nos arredores de Maribor. Fazia peças em série para camiões, peças tão pequenas que não se viam, mas sem as quais os motores não funcionavam. Perguntei-lhe por que razão não conseguia acabar o poema. Talvez porque não conheci bem o meu pai, disse. Via-o sair todas as manhãs e regressar todas as noites, sempre com ar cansado. Sabia que fazia aquelas peças em série. Pouco mais. Parte da família do pai ficara na Bósnia. Alguns morreram durante a guerra, outros desapareceram ou deixaram de se falar. Miha disse que o pai falava pouco. No salão atrás de nós passava um documentário sobre o lirismo luso-galaico no próximo século, filmado com uma estética inspirada nos cartazes soviéticos. Ouviram-se aplausos e Miha sorriu. No dia seguinte, dois poetas conduziram workshops vivenciais, em pequenos grupos, sobre a construção de poemas a partir de palavras escolhidas ao acaso. Os workshops eram em inglês, mas os participantes podiam escrever na língua que quisessem. Um poeta húngaro perguntou como faria se decidisse escrever em eslavo. Um dos poetas devolveu a pergunta à plateia e a mulher de Anadia respondeu que deveria escrever devagar. A plateia riu. Vi-o nessa manhã, enquanto tomava café. Tinha outra vez o cartão ao pescoço e nos pés as mesmas sapatilhas verdes. Perguntei-lhe quantos poemas já tinha escrito nesse dia. Sessenta, respondeu. Escrevi-os pela madrugada dentro. Depois levantou-se e levou consigo a chávena por engano. E é sobretudo disso que me lembro quando me lembro dele: a desaparecer por um corredor com uma chávena branca na mão. Anos depois encontrei um poema seu, todo escrito em minúsculas, num fórum de poetas do Adriático. Falava de Rimini, do Adriático, de barraquinhas branquinhas, de um vestidinho carmim e de um barco a afundar-se no céu. Não era um mau poema, mas não me lembraria dele se não conhecesse quem o escreveu. Não sei se Miha ainda escreve quarenta, cinquenta, cem poemas por dia. Às vezes penso também no pai de Miha, durante quarenta anos numa fábrica, a fazer peças em série que ninguém via. Talvez Miha procurasse nos poemas coisas igualmente pequenas, palavras, talvez letras, sem as quais os poemas não funcionassem.
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