Em outubro de 2019,
conheci um poeta esloveno
durante uma conferência de poesia
num hotel em frente ao mar, na Ericeira.
Chamava-se Miha Kovačnik
e disse-me que vendia poemas em série.
Perguntei-lhe em que quantidades
os vendia.
Em lotes de vinte,
de cinquenta e de cem,
respondeu.
Por vezes, lotes de duzentos.
Vestia camisa branca, ténis verdes
e levava ao pescoço um cartão
que dizia Poet,
High-Volume Poetry Specialist.
Naquela manhã, falara durante uma hora
sobre musgo, maçanetas e montras na poesia
e sobre a importância de não termos medo
de atravessar a nossa própria vida.
Uma mulher de Anadia chorou
na fila da frente.
Ao almoço ficámos lado a lado.
Havia peixe, batatas pequenas, vinho branco
e uma saladinha numa tigela de metal.
Perguntei-lhe como se escreviam
tantos poemas.
Disse-me que não se pensa muito.
Depois explicou que tinha poemas prontos
para mães, para crianças,
para gente que partia,
para as várias horas do dia,
para o mar, para a floresta, para a saudade,
e também alguns muito específicos
para escritores inventados, mulheres sozinhas,
aldeias esquecidas, famílias disfuncionais,
cães invisíveis e poetas mortos.
Mudava apenas um nome,
uma rua ou uma árvore.
Por vezes nem a árvore mudava.
Há árvores, disse,
que servem para toda a gente;
oliveiras e cerejeiras, por exemplo.
À tarde encontrei-o sentado
do lado de fora do hotel,
sem o cartão ao pescoço.
Fumava, apesar de ter dito antes
que deixara de fumar.
Sentei-me também.
O mar via-se entre dois prédios,
uma faixa azul imensa.
Perguntei-lhe se alguma vez
tinha demorado muito tempo
a escrever um poema.
Sim, disse.
Um.
Perguntei-lhe quanto tempo demorou.
Três anos.
O meu pai morreu, disse,
e comecei um poema que ainda não acabei.
Miha fumou até ao filtro
e depois contou-me que o pai
trabalhara durante quarenta anos
numa fábrica de automóveis e motores
em Tezno, nos arredores de Maribor.
Fazia peças em série para camiões,
peças tão pequenas que não se viam,
mas sem as quais
os motores não funcionavam.
Perguntei-lhe por que razão
não conseguia acabar o poema.
Talvez porque não conheci bem
o meu pai, disse.
Via-o sair todas as manhãs
e regressar todas as noites,
sempre com ar cansado.
Sabia que fazia aquelas peças
em série.
Pouco mais.
Parte da família do pai
ficara na Bósnia.
Alguns morreram durante a guerra,
outros desapareceram
ou deixaram de se falar.
Miha disse que o pai
falava pouco.
No salão atrás de nós
passava um documentário
sobre o lirismo luso-galaico
no próximo século,
filmado com uma estética inspirada
nos cartazes soviéticos.
Ouviram-se aplausos
e Miha sorriu.
No dia seguinte, dois poetas
conduziram workshops vivenciais,
em pequenos grupos,
sobre a construção de poemas
a partir de palavras
escolhidas ao acaso.
Os workshops eram em inglês,
mas os participantes podiam escrever
na língua que quisessem.
Um poeta húngaro perguntou
como faria
se decidisse escrever em eslavo.
Um dos poetas devolveu
a pergunta à plateia
e a mulher de Anadia respondeu
que deveria escrever devagar.
A plateia riu.
Vi-o nessa manhã,
enquanto tomava café.
Tinha outra vez
o cartão ao pescoço
e nos pés
as mesmas sapatilhas verdes.
Perguntei-lhe quantos poemas
já tinha escrito nesse dia.
Sessenta, respondeu.
Escrevi-os pela madrugada dentro.
Depois levantou-se
e levou consigo
a chávena por engano.
E é sobretudo disso que me lembro
quando me lembro dele:
a desaparecer por um corredor
com uma chávena branca na mão.
Anos depois encontrei um poema seu,
todo escrito em minúsculas,
num fórum de poetas do Adriático.
Falava de Rimini, do Adriático,
de barraquinhas branquinhas,
de um vestidinho carmim
e de um barco
a afundar-se no céu.
Não era um mau poema,
mas não me lembraria dele
se não conhecesse quem o escreveu.
Não sei se Miha ainda escreve
quarenta, cinquenta,
cem poemas por dia.
Às vezes penso também no pai de Miha,
durante quarenta anos numa fábrica,
a fazer peças em série que ninguém via.
Talvez Miha procurasse nos poemas
coisas igualmente pequenas,
palavras,
talvez letras,
sem as quais
os poemas não funcionassem.