Desalinho Silencioso

Data 22/09/2026 14:01:55 | Tópico: Poemas


Talvez tenha chegado a hora de dizer à poesia que já não dançamos no mesmo compasso

Há um desalinho silencioso entre nós, um desencontro que não grita, mas cansa

Eu a deixo na soleira da porta e fecho devagar, como quem não quer ferir o que ainda ama

Tudo o que vivi nela permanece doendo em mim, com a delicadeza das coisas que foram verdadeiras

Talvez eu não queira mais escrever

Minhas palavras criam vida própria, escorrem para outras existências,

se envolvem em caminhos que não sei conduzir Sigo-as e me perco

Há direções demais e nenhum norte Fico confusa, triste,

habitando um lugar onde o sentir pesa mais que o dizer

Existe em mim uma névoa mansa, feita de cansaço e de silêncios acumulados

Um esgotamento de sangrar em versos, de me partir em metáforas para continuar existindo

Por isso escolho outro abrigo: o som, prefiro ser música menos nítida,

mais sentida atravessando o peito sem precisar explicar

Perdoa-me, poesia, se agora te abandono

Não é desamor, é sobrevivência é o modo que encontrei de continuar respirando sem me ferir tanto.

Talvez um dia eu volte, quando a palavra e o som aprenderem novamente a caminhar juntas,

respirando no mesmo ritmo dentro de mim.


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