Talvez tenha chegado a hora de dizer à poesia que já não dançamos no mesmo compasso
Há um desalinho silencioso entre nós, um desencontro que não grita, mas cansa
Eu a deixo na soleira da porta e fecho devagar, como quem não quer ferir o que ainda ama
Tudo o que vivi nela permanece doendo em mim, com a delicadeza das coisas que foram verdadeiras
Talvez eu não queira mais escrever
Minhas palavras criam vida própria, escorrem para outras existências,
se envolvem em caminhos que não sei conduzir Sigo-as e me perco
Há direções demais e nenhum norte Fico confusa, triste,
habitando um lugar onde o sentir pesa mais que o dizer
Existe em mim uma névoa mansa, feita de cansaço e de silêncios acumulados
Um esgotamento de sangrar em versos, de me partir em metáforas para continuar existindo
Por isso escolho outro abrigo: o som, prefiro ser música menos nítida,
mais sentida atravessando o peito sem precisar explicar
Perdoa-me, poesia, se agora te abandono
Não é desamor, é sobrevivência é o modo que encontrei de continuar respirando sem me ferir tanto.
Talvez um dia eu volte, quando a palavra e o som aprenderem novamente a caminhar juntas,
respirando no mesmo ritmo dentro de mim.
Fragmentos de Sonhos
(Isa)