Poemas : 

Desalinho Silencioso

 
Tags:  porquê    escrevo    o silêncio    não me comporta  
 

Talvez tenha chegado a hora de dizer à poesia que já não dançamos no mesmo compasso

Há um desalinho silencioso entre nós, um desencontro que não grita, mas cansa

Eu a deixo na soleira da porta e fecho devagar, como quem não quer ferir o que ainda ama

Tudo o que vivi nela permanece doendo em mim, com a delicadeza das coisas que foram verdadeiras

Talvez eu não queira mais escrever

Minhas palavras criam vida própria, escorrem para outras existências,

se envolvem em caminhos que não sei conduzir Sigo-as e me perco

Há direções demais e nenhum norte Fico confusa, triste,

habitando um lugar onde o sentir pesa mais que o dizer

Existe em mim uma névoa mansa, feita de cansaço e de silêncios acumulados

Um esgotamento de sangrar em versos, de me partir em metáforas para continuar existindo

Por isso escolho outro abrigo: o som, prefiro ser música menos nítida,

mais sentida atravessando o peito sem precisar explicar

Perdoa-me, poesia, se agora te abandono

Não é desamor, é sobrevivência é o modo que encontrei de continuar respirando sem me ferir tanto.

Talvez um dia eu volte, quando a palavra e o som aprenderem novamente a caminhar juntas,

respirando no mesmo ritmo dentro de mim.


Fragmentos de Sonhos
(Isa)

 
Autor
FragmentosdeSonhos
 
Texto
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323
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Enviado por Tópico
Hondy
Publicado: 22/09/2026 15:00  Atualizado: 22/09/2026 15:03
Da casa!
Usuário desde: 26/08/2025
Localidade:
Mensagens: 216
 Re: Desalinho Silencioso
Perdoa-me, poesia, se agora te abandono.
********

Espero que isto não seja um adeus, mas apenas mais uma poesia que você tão bem escreve — daquelas que a vida deixa no papel, mas o coração insiste em guardar.

Hondy



Enviado por Tópico
DCM_1978
Publicado: 22/09/2026 16:40  Atualizado: 22/09/2026 16:40
Da casa!
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 413
 Re: Desalinho Silencioso
Sim Isa, escrever poesia é como mexer numa ferida, podes até ficar "adormecida" mas duvido que a abandones porque está na tua alma. Até breve, Poeta Isa 🙏


Enviado por Tópico
Correa
Publicado: 22/09/2026 22:22  Atualizado: 22/09/2026 22:22
Super Participativo
Usuário desde: 06/02/2026
Localidade:
Mensagens: 197
 Re: Desalinho Silencioso
Que seja só poesia...ainda que linda...mas eu até entenderia...pois em cada texto quando chega a ultima palavra eu digo...cansei...mas aí nasce o dia e vem outra noite e acabo no mesmo lugar...não consigo obedecer a mim mesmo...mas no meu caso eu até sei porque não consigo...outros papos...mas vc...a poesia é a forma de vc exteriorizar cada sentimento guardado ...não Isa...sinto informar pra vc ( mas com alegria para nós) que vc não vai parar...há muito sentimento a se transformar em verso aí dentro...espero que eu esteja certo. Bj grande fica com Deus

Enviado por Tópico
RaphaelVilela
Publicado: 23/09/2026 00:51  Atualizado: 23/09/2026 00:51
Da casa!
Usuário desde: 28/06/2025
Localidade:
Mensagens: 272
 Re: Desalinho Silencioso
Poesia simplesmente fantástica!
Favoritei, claro, e se puder por gentileza mandar por texto no zap pra eu salvar eu agradeceria!
Um profundo e visceral contato com o que é o fazer artistico para o artista, um lugar onde há encontros e desencontros consigo mesmo e com o mundo !
Lindo! Parabens!

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 23/09/2026 17:28  Atualizado: 23/09/2026 17:28
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
Localidade:
Mensagens: 2416
 Re: Desalinho Silencioso
Olá, Fragmentos de Sonhos

Há qualquer coisa que hesita em dizer
um silêncio a escutar-se devagar
e há no som um modo de acontecer
aquilo que a palavra não pode explicar!

Apenas a dúvida, pairando sobre o poema será possível dizer o indizível sem que a palavra de algum modo nos transforme!

Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 28/09/2026 12:58  Atualizado: 28/09/2026 12:58
Super Participativo
Usuário desde: 15/02/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 135
 Re: Desalinho Silencioso
Estimada poetisa, continua a abraçar a beleza que só o teu verso sabe criar. Não posso (nem quero) aceitar esse abandono, até porque trago sempre comigo o brinde fraternal de Miguel Torga:

[…]

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

[…]

Com admiração,
Carlos

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 02/10/2026 15:37  Atualizado: 02/10/2026 15:37
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 1048
 Re: Desalinho Silencioso
.
Quando nos faltam, temos sempre as palavras dos outros, que passam pelo mesmo:

Agora as Palavras - Eugénio de Andrade

Obedecem-me agora muito menos
agora as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?

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