
"O Mundo num Quintal"
Data 01/10/2026 21:16:01 | Tópico: Letras de Música
| [Verse 1] No roçado de milho A minha mãe entrava, Buscando a espiga Que o sol clareava. Ela limpava o milho Pro prato servido, O sabugo ficava Limpo e despido. O cabelo da espiga, Comprido e marrom, Virava a trança Da boneca então. Retalho de chita Virou vestidinho, Minha boneca de roça Feita com carinho.
[Verse 2] No chão de terra batida A poeira subia, Com o arquinho de ferro Que o pai me trazia. o pneuzinho tirado Do carrinho de feira, No cabo de vassoura Rodava a terra inteira. O arame na ponta Ia controlando, Livrando os buracos, No trilho desviando.
[Verse 3] No aclive da rua A gente subia, Buscando a rampa Que o peito queria. Jogava água na terra, Fazendo o lameiro, Pra pista ficar lisa E escorregar inteiro. Lá vinha o rolemã, Madeira e rodado, Deslizando depressa No chão bem molhado. Rolamento gasto, Grito e emoção... A nossa aventura Batia no coração!
[Pre-Chorus] Ninguém compra o riso Da gude estalando! O pião de goiabeira No terreiro desenhando!
[Chorus] Risca a amarelinha, Vai a pipa pro céu! Balança no cipó, Num voo de papel! Pegava o impulso No galho mais alto, E caía na água Num lindo salto! Aquele frio gostoso No meio do rio... O brinquedo mais simples Que a roça sorriu!
[Verse 4] Na cabra-cega o lenço O rosto guardava. No jogo do passa-anel A mãozinha esperava. Brincava de canto Na escolinha da roça, No pátio da escola A brincadeira era nossa. A alegria era verdadeira, Quem ficasse sem canto Saía da brincadeira. E quando a merenda chegava No fim da lição, O pão com doce de abóbora Aquecia o coração!
[Verse 5] A luz do lampião Na parede brilhava, Com a mãozinha a gente fazia O que a sombra formava. Um passarinho voando, Um cachorro a latir, A gente ia criando Até a hora de dormir. No fio de linha A lata integrada, Virava o telefone Da nossa brincadeira. Guerra de travesseiro De paina macia, O barbante nas mãos Que a figura tecia. Na perna de pau E no carro de tábua, Cinco amigos correndo Sem medo da mágoa. Pulando cavalo, Um montava no outro, Batendo a peteca De palha, sem alvoroço.
[Verse 6] E quando o grande circo Na vila chegava, A falta de dinheiro Não nos segurava. Por baixo da lona, Numa travessura, A gente entrava Pra ver a cultura. O riso do palhaço Na velha serragem... A nossa infância Tinha mais coragem!
[Verse 7] Mas hoje eu olho as crianças Presas no quadrado, Esquecendo a poesia Do tempo passado. O brinquedo de plástico Que o mundo vendeu, Não tem a mesma nostalgia Que o meu pai me deu. E essa saudade aperta O peito da gente, De ver que a poesia Hoje se espanta. Guardo aquele brinquedo E o milho na mente, Pra que a nossa raiz Viva sempre na gente!
[Verso 8] Quem me dera os meninos E as meninas de hoje em dia Pudessem provar Dessa mesma alegria... Sentir a poeira, Viver o quintal, Com os olhos dos pais Num tempo real. Ouvir a mãe chamando Pro jantar lá no fundo... E correr pra casa Como o melhor do mundo. Naquele canto de terra Onde eu brincava, E Deus guardava O meu lar.
"O Mundo num Quintal" É um resgate em versos da infância que vivi e testemunhei na roça. Em tempos dominados pelo plástico e pelas telas, esta poesia traz a memória dos brinquedos feitos à mão — do sabugo de milho ao carrinho de rolemã — e celebra a simplicidade, o afeto e a coragem de um tempo em que o mundo inteiro cabia no nosso quintal. Uma homenagem às nossas raízes caipiras e à poesia das coisas simples.
Geremias Bom Sucesso
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