Letras de Música : 

"O Mundo num Quintal"

 
[Verse 1]
No roçado de milho
A minha mãe entrava,
Buscando a espiga
Que o sol clareava.
Ela limpava o milho
Pro prato servido,
O sabugo ficava
Limpo e despido.
O cabelo da espiga,
Comprido e marrom,
Virava a trança
Da boneca então.
Retalho de chita
Virou vestidinho,
Minha boneca de roça
Feita com carinho.

[Verse 2]
No chão de terra batida
A poeira subia,
Com o arquinho de ferro
Que o pai me trazia.
o pneuzinho tirado
Do carrinho de feira,
No cabo de vassoura
Rodava a terra inteira.
O arame na ponta
Ia controlando,
Livrando os buracos,
No trilho desviando.

[Verse 3]
No aclive da rua
A gente subia,
Buscando a rampa
Que o peito queria.
Jogava água na terra,
Fazendo o lameiro,
Pra pista ficar lisa
E escorregar inteiro.
Lá vinha o rolemã,
Madeira e rodado,
Deslizando depressa
No chão bem molhado.
Rolamento gasto,
Grito e emoção...
A nossa aventura
Batia no coração!

[Pre-Chorus]
Ninguém compra o riso
Da gude estalando!
O pião de goiabeira
No terreiro desenhando!

[Chorus]
Risca a amarelinha,
Vai a pipa pro céu!
Balança no cipó,
Num voo de papel!
Pegava o impulso
No galho mais alto,
E caía na água
Num lindo salto!
Aquele frio gostoso
No meio do rio...
O brinquedo mais simples
Que a roça sorriu!

[Verse 4]
Na cabra-cega o lenço
O rosto guardava.
No jogo do passa-anel
A mãozinha esperava.
Brincava de canto
Na escolinha da roça,
No pátio da escola
A brincadeira era nossa.
A alegria era verdadeira,
Quem ficasse sem canto
Saía da brincadeira.
E quando a merenda chegava
No fim da lição,
O pão com doce de abóbora
Aquecia o coração!

[Verse 5]
A luz do lampião
Na parede brilhava,
Com a mãozinha a gente fazia
O que a sombra formava.
Um passarinho voando,
Um cachorro a latir,
A gente ia criando
Até a hora de dormir.
No fio de linha
A lata integrada,
Virava o telefone
Da nossa brincadeira.
Guerra de travesseiro
De paina macia,
O barbante nas mãos
Que a figura tecia.
Na perna de pau
E no carro de tábua,
Cinco amigos correndo
Sem medo da mágoa.
Pulando cavalo,
Um montava no outro,
Batendo a peteca
De palha, sem alvoroço.

[Verse 6]
E quando o grande circo
Na vila chegava,
A falta de dinheiro
Não nos segurava.
Por baixo da lona,
Numa travessura,
A gente entrava
Pra ver a cultura.
O riso do palhaço
Na velha serragem...
A nossa infância
Tinha mais coragem!

[Verse 7]
Mas hoje eu olho as crianças
Presas no quadrado,
Esquecendo a poesia
Do tempo passado.
O brinquedo de plástico
Que o mundo vendeu,
Não tem a mesma nostalgia
Que o meu pai me deu.
E essa saudade aperta
O peito da gente,
De ver que a poesia
Hoje se espanta.
Guardo aquele brinquedo
E o milho na mente,
Pra que a nossa raiz
Viva sempre na gente!

[Verso 8]
Quem me dera os meninos
E as meninas de hoje em dia
Pudessem provar
Dessa mesma alegria...
Sentir a poeira,
Viver o quintal,
Com os olhos dos pais
Num tempo real.
Ouvir a mãe chamando
Pro jantar lá no fundo...
E correr pra casa
Como o melhor do mundo.
Naquele canto de terra
Onde eu brincava,
E Deus guardava
O meu lar.




Geremias
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"O Mundo num Quintal"
É um resgate em versos da infância que vivi e testemunhei na roça. Em tempos dominados pelo plástico e pelas telas, esta poesia traz a memória dos brinquedos feitos à mão — do sabugo de milho ao carrinho de rolemã — e celebra a simplicidade, o afeto e a coragem de um tempo em que o mundo inteiro cabia no nosso quintal. Uma homenagem às nossas raízes caipiras e à poesia das coisas simples.

Geremias Bom Sucesso
 
Autor
BOMSUCESSO
 
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