
Sob joelhos femininos
Data 30/10/2026 16:35:46 | Tópico: Poemas
| Quando a voz é casa fechada Dizem que a mudança vem dura, de punho fechado e ordem fria, que só no extremo nasce futuro e que a justiça precisa de ferida. Em Portugal de ruas antigas, onde o fado chora baixinho, a mulher aprende cedo a falar só para dentro. É vista como casa, como chão limpo, como mãos cansadas que não pedem descanso. Trabalho sem nome, amor por obrigação, corpo que serve, voz que não. Pedem-lhe silêncio elegante, agrado constante, sorriso pronto para homens que decidem por ela. Se desagrada, falha. Se questiona, exagera. Se grita, ameaça. E então dizem: “Queremos mudança.” Mas mudam para trás. Chamam progresso à mordaça, ordem à submissão, tradição à prisão. Os extremos vestem-se de solução, gritam que é necessário apertar, controlar, limitar como se o direito fosse luxo e a liberdade um erro antigo. Querem salvar a pátria calando metade dela. Querem força no governo e fraqueza no ventre feminino. Mas nenhuma nação cresce sobre joelhos femininos dobrados. Nenhuma mudança é justa quando exige o silêncio como preço. Portugal não precisa de extremos, precisa de memória. Porque já se sabe, da história: toda a vez que o poder cala mulheres, é o país inteiro que perde a voz.
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