Quando a voz é casa fechada
Dizem que a mudança vem dura,
de punho fechado e ordem fria,
que só no extremo nasce futuro
e que a justiça precisa de ferida.
Em Portugal de ruas antigas,
onde o fado chora baixinho,
a mulher aprende cedo
a falar só para dentro.
É vista como casa,
como chão limpo,
como mãos cansadas
que não pedem descanso.
Trabalho sem nome,
amor por obrigação,
corpo que serve,
voz que não.
Pedem-lhe silêncio elegante,
agrado constante,
sorriso pronto
para homens que decidem por ela.
Se desagrada, falha.
Se questiona, exagera.
Se grita, ameaça.
E então dizem:
“Queremos mudança.”
Mas mudam para trás.
Chamam progresso à mordaça,
ordem à submissão,
tradição à prisão.
Os extremos vestem-se de solução,
gritam que é necessário apertar,
controlar, limitar
como se o direito fosse luxo
e a liberdade um erro antigo.
Querem salvar a pátria
calando metade dela.
Querem força no governo
e fraqueza no ventre feminino.
Mas nenhuma nação cresce
sobre joelhos femininos dobrados.
Nenhuma mudança é justa
quando exige o silêncio como preço.
Portugal não precisa de extremos,
precisa de memória.
Porque já se sabe, da história:
toda a vez que o poder cala mulheres,
é o país inteiro que perde a voz.