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Mensagens enviadas - arquivo
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
Bom dia.
Reparei que as mensagens privadas que envio só ficam guardadas quando são respostas a alguém.
Há alguma opção para arquivar todas as mensagens enviadas?
Muito obrigado!

Criado em: 6/5/2018 12:35
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Re: Sarau "O Grito da Poesia"
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
O que me atraiu, desde logo, nesta ideia de um sarau de poesia on line, foi a possibilidade de se combinarem vozes de várias latitudes, com vários estilos e sensibilidades. Mal comparado, sinto nesta fusão de poemas um pouco da escrita polifónica da Svetlana Aleksievich, jornalista que percorreu cenários de dor e coragem, conjugando num mesmo discurso diversos relatos de sobreviventes às mais duras provações com a maior das dignidades.
No nosso caso, trata-se não de um momento de sofrimento, mas de celebração e alegria, mesmo quando cantamos a tristeza e a frustração: esse lado agridoce da poesia que tanto amamos, pois permite que, por momentos, possamos regressar à pureza das crianças e expressar sem medos não só as nossas fraquezas, mas também o arrebatamento que a vida nos traz.
Uma palavra de reconhecimento à Maria Lúcia e à Lucineide. Para além da ideia e da preparação do evento, é justo que se saliente a forma dedicada e delicada como têm comentado os textos, sempre com uma palavra terna de incentivo e generoso elogio.

Criado em: 4/8/2017 7:56
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Re: Sarau "O Grito da Poesia"
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
O poeta maldito

Num canto sombrio do quarto,
atrás de uma coluna de livros
e de vinis riscados,
vive o poeta maldito,
misantropo e proscrito,
demente e carrancudo,
com olheiras e tudo.
Às vezes levo-lhe o que sobrou
de sonhos, frustrações,
de motins religiosos,
de certos amores proibidos...
Então descerra as pálpebras
que esqueceram a luz do sol
e arrasta os despojos para a toca
onde conserva todo o dia
estes restos de pesadelo,
remoendo, resmungando...
Uma vez por semana
faço a limpeza às quimeras
gravadas no soalho, nas paredes,
e penteio a cabeleira revolta
que se recusa a deixar cortar,
mais por hábito
que por convicção.
Às vezes levo-o a passear
até ao fundo do jardim,
deixo-o brincar com os primeiros raios de lua
e ele uiva de júbilo
enquanto, com carinho e paciência,
o vou espancando uma vez por outra
quando desenterra este ou aquele passado.
Tem fugido algumas vezes:
demora-se pelas florestas
ou aventura-se pelo deserto
até que o corpo reclame abrigo
ou que outro poeta
mais sábio e inspirado
o escorrace com palavras obscenas
por causa do odor
a prosápia e a cobardia.
Meu pobre poeta,
um dia terei de te deixar
ou talvez tu a mim.
Quem sabe venhamos a descobrir,
num vitral partido,
no reflexo de um charco,
a imagem um do outro.
Que nos reserva esse instante?
Sobressalto, melancolia,
saudade, desilusão
ou simplesmente solidão?

Criado em: 3/8/2017 8:52
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Re: Sarau "O Grito da Poesia"
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
Noviço

Fiz de ti meu mestre
do silêncio
da pulsação
do hálito
da madrugada.
Nada aprendi,
só o sabor
da tua pele.

.............

Mais uma vez obrigado pelo convite e parabéns pela iniciativa.

Criado em: 30/7/2017 0:24
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Re: Da verdade
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
Admiro a sua resposta, nos vários sentidos que o verbo "admirar" pode ter.
A discussão consigo também foi um momento de aprendizagem e reflexão, que agradeço, apesar do entusiasmo ter levado a um ou outro exagero. Não quanto ao tratamento por "velha senhora", que até achei graça...
Creio que para o meu caro Rogério também não terá sido tempo perdido. Parece-me que ele também aprecia a intensidade de um debate aceso e, para além disso, tem bom humor, o que ajuda muito a relativizar aquilo que, na vida, não tem importância.
Pode ser que, um dia, o Azke lance algum tema por aqui e que possamos todos conversar de outra forma, mais descontraída, para apagarmos más impressões.
Até um dia.

Criado em: 23/7/2017 17:55
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Re: Da verdade
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
As mensagens de um dos interlocutores neste tópico foram retiradas.
Quer tenha sido uma decisão do autor, quer da administração do Luso, compreendo e aceito. No entanto, como devem calcular, as restantes mensagens parecerão algo estranhas, porque argumentam a partir de algo que, entretanto, desapareceu.
Tenho pena, até porque, mesmo discordando das afirmações do nosso contestante, defendo o seu direito de as publicar, no respeito pelo princípio da liberdade de expressão.

Criado em: 23/7/2017 14:45
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Re: Da verdade
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
O Rogério é meu irmão de letras. Ponto. Não pretendo defendê-lo, porque eu seria sempre parcial e, além disso, ele não precisa que eu o faça. No entanto, quero dizer publicamente uma ou duas coisas sobre ele.
Tem sempre razão? Não (nem o deseja). É consensual? "Credo", diria ele. É bem comportado? Não, tem sangue na guelra e não se cala. Tem contradições? Todos temos, e depois?
O Rogério também é conhecido por uma característica que lhe pode valer amargos de boca: aproximar-se dos limites que os lugares-comuns impõem e discuti-los, com argúcia e clara consciência da proximidade do risco.
Dito isto, só quem está distraído é que não reconhecerá a dedicação séria ao que ele próprio e ao que os outros escrevem. Para além de ser um poeta dos mais desafiantes que conheço, é o exemplo acabado de um princípio que muitos reconhecem, mas poucos colocam em prática: aos autores que admiramos, devemos, acima de tudo, uma leitura atenta e reflexão. Uma obra literária não nasceu para ser um capítulo de um manual escolar ou um ponto turístico no panteão nacional, mas sim para ser lida e vivida.

Reconheço que talvez me tenha excedido na forma como me referi aos textos do Azke. Leitura crítica é diferente de sarcasmo. A primeira merece ser exposta em espaço público; o segundo só tem interesse para os próprios que, se quiserem, têm espaços onde podem trocar estes e outros mimos.
Não concordo com a sua posição sobre a autenticidade dos textos estar necessariamente agregada à biografia do autor. O formalismo russo do início do século explica-o melhor do que eu conseguiria, portanto, remeto-o para essas leituras (pesadas, mas úteis para quem se interessa por literatura a sério, como parece ser o caso).
Estudar os circuitos literários e editoriais, os fatores que tornam um autor canónico, as variantes que fazem de uma obra um best-seller... Tudo isso tem interesse, numa perspetiva descritiva-explicativa, não como norma ou prescrição. Não posso dizer com toda a certeza que alguém que tenha uma vida interessante, respeitável, altruísta até, seja necessariamente um bom escritor. E vice-versa: há escroques que, com aquilo que escrevem, conseguem inquietar-nos, pôr a nu as nossas vulnerabilidades e mudar a nossa vida.
Finalmente, posso estar errado, mas vejo uma diferença de grau entre um comentário neste espaço, mesmo que não tenha a elevação que se desejaria, e as manipulações perversas de um pedófilo. Associar uma a outra situação é uma falácia comummente denominada "bola de neve".
Do mesmo modo, não creio que usar um determinado vocabulário nos textos tenha a ver necessariamente com recalcamentos. Por o Azke se referir tantas vezes a cabras e cavalos, terá ele tendências parafílicas com animais? Até Freud tem limites...

Criado em: 19/7/2017 10:00
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Re: Da verdade
Colaborador
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21/1/2009 22:49
Mensagens: 716
Creio que pode ser interessante, neste ponto do debate, apresentar um exemplo recente que pode ilustrar o que pretendo dizer.
Há algum tempo, uma escritora italiana começou a invadir os escaparates e a chamar a atenção pelos temas e pela intensidade dos seus livros, mas também pelo facto de recusar entrar nos circuitos literários, ocultando quaisquer dados biográficos, recusando entrevistas ou o contacto com fãs.
Chama-se Elena Ferrante. Li um livro seu, sem nada saber a seu respeito. Terminei a leitura impressionado e inquieto. Não preciso de dizer que o seu anonimato não me pareceu nem subversivo, nem uma forma intencional de criar um certo hype à sua volta (alguma imprensa tentou passar esta ideia). Pareceu-me algo natural, de quem achava que o seu texto devia ser analisado sem uma interpretação linear, feita a partir da história da sua vida ou das suas declarações públicas.
Há meses, sem a sua autorização, foi publicado o seu nome por um jornalista que se ufanou em descobrir a identidade da autora. O que se conseguiu com esta revelação? Conhecer uma vida discreta e sem dramatismos (afinal, é permitido aos escritores que sejam "pessoas normais"), muito diferente das personagens e das situações que narra. E, entretanto, desrespeitar o direito à reserva e à vida privada das pessoas, que desejam ficar longe de coscuvilheiros e da imprensa sensacionalista, que granjeou alguns cobres à custa da história...

O meu nome, a minha idade, a minha profissão... Interessam assim tanto a quem gosta ou a quem detesta o que escrevo? Farão diferença a quem for elogiado ou criticado por mim?
Depois do que escrevi aqui, ficarão com certeza com uma ideia mais completa a meu respeito do que se eu simplesmente colocasse uma foto e o meu nome no perfil, já agora com o endereço do Facebook, para poderem ver a minha data de aniversário e as fotos da minha vida banalíssima...
Haverá quem se escude no anonimato para ser insultuoso -- mas essa será a regra ou a exceção?


Criado em: 18/7/2017 18:21
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Re: Da verdade
Colaborador
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21/1/2009 22:49
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A minha intenção ao abrir este tópico não era discutir o tema da verdade numa perspetiva epistemológica, ou seja, se é possível ou não conhecer a Verdade ou, aprofundando mais ainda, se a Verdade existe. Deixo isso para os especialistas em Locke, Berkeley e quejandos.
A minha intenção era problematizar a ideia de que é necessário conhecer dados pessoais de cada um dos autores deste site, caso contrário, o espaço perde qualidade e fica sujeito a todo o tipo de desmandos e insultos.
Tentei provar que é legítimo e até, em certas circunstâncias, preferível recorrer a um pseudónimo em vez de se assinar em nome próprio. Aliás, o risco da diminuição da qualidade das discussões (Nota: eufemismo para "lavagem de roupa suja") existe mesmo com a identificação dos autores, como temos assistido desde há muito...
Sem entrar por aí, passemos ao que interessa.
O Rogério introduz várias ideias que aprofundam o tema e acrescenta um argumento que me agrada particularmente: a de que o nome (verdadeiro ou falso) pode entrar no jogo literário e introduzir "nuances" na leitura dos textos. A simbologia associada aos antropónimos pode ser mais um recurso a envolver todos os outros a que um criador lança mão. É como uma espécie de moldura, que enquadra os textos, mas não deturpa a sua imagem.

Criado em: 18/7/2017 8:50
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Re: Da verdade
Colaborador
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21/1/2009 22:49
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Na minha família, a religião sempre teve muita importância. Para mim, também já teve, mas o caminho foi longo e tive de me desfazer de muita coisa para o percorrer...
Hoje em dia a escrita é o que tenho de mais parecido com uma experiência espiritual. Não serei muito original a dizê-lo, muita gente descreve o processo criativo dessa maneira.
Mas, para mim, há algo de especial, não durante o processo, mas na sua fase final, quando sinto interiormente que terminei. Quando volto a ler e parece que vejo algo que já não me pertence, algo estranho e familiar ao mesmo tempo. Há quem descreva isso como a experiência do parto. Não sei. Sei sim que é algo que me dá prazer e, sim, parece-me verdadeiro, no meio de tantas coisas falsas a que nos sujeitamos por força das circunstâncias da vida.
Essa experiência não tem nada a ver com um suposto sentimento de vaidade pela qualidade dos escritos. Alguns dos textos de que mais gosto são os que menos elogios granjearam, o que não tem importância absolutamente nenhuma -- o importante é a intensidade e a autenticidade que sinto nessas palavras imperfeitas.
Quanto à sua resposta: mostra muito mais sobre si do que uma fotografia ou um nome próprio. Mostra uma pessoa disponível para ouvir e para aceitar, mesmo que discorde. Mostra uma pessoa humilde e segura o suficiente para dizer que entende, sem ver isso como uma derrota numa competição.
Aliás, se alguém saísse derrotado, seria eu, que lhe revelei muito mais nestas duas respostas do que porventura quereria no início deste debate :)

Criado em: 17/7/2017 16:26
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