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Comentário a "Epinício de wagner", de atizviegas68
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2/10/2021 13:11
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"Epinício de wagner", de atizviegas68

Ónuris traja fuzis.
Barbas e peito [Varão.
D´império.
Na toada d`equinos.
Com ferros matarão.

Ares de peito em bronze.
Cruza terras.
E, lança grinaldas.
Num corcel a galope.
Leva bandeiras e feras.

Cães d`afiados dentes.
Cólera e domadores.
Com flecha nas laterais.
Homens. [Deuses combatentes.
Cípris lágrimas mortais.

Do punho de Týr.
Soam baionetas.
Fogo em madeixas.
Com balas e genetas.
Deixas fundas valetas.

Com a armada de Odin.
Com seus corvos Hugin e Munin.
Põem o mundo a sofrer.
Com o toque da chibata.
Toca-se o epinício de wagner.

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Percurso de leitura nº 12 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

Há muito que queria comentar um poema desta autora. Há nos seus textos uma sonoridade e um imaginário distintivos, uma certa "dignidade" da palavra, que é usada sempre com precisão e propriedade, com ambiguidades e polissemias sempre à espera de quem as queira encontrar.

Este poema em especial é um festim para quem aprecia uma boa exploração literária, histórica e mitológica. Vou dar o meu melhor, confessando já que muitas das referências que vou trazer para aqui são resultado de uma simples pesquisa na Internet e não de um conhecimento aprofundado sobre os temas em causa. Conto com a compreensão e com a boa vontade da autora para esclarecer algum ponto que, por isso, não tenha sido destacado e que tenha interesse para a interpretação.

Comecemos pelas palavras do título.

"Epinício" era o nome dado a certos poemas da Grécia Clássica, escritos em louvor de uma vitória atlética. Todavia, mais do que descrever a circunstância da competição, o epinício constituía um espaço livre de exaltação da beleza e do sublime, da justiça e do amor.

Quanto a "Wagner", há duas interpretações possíveis, que estão relacionadas.
Por um lado, existe um grupo paramilitar designado Wagner que, segundo o link apontado pela autora, é uma organização de apoio à Rússia nos conflitos em que se encontre envolvida, como é o caso da atual invasão à Ucrânia.
Por outro lado, pode referir-se a Richard Wagner, compositor alemão do séc. XIX, universalmente conhecido sobretudo pela sua marcha nupcial e pela composição "Cavalgada das Valquírias", tantas vezes utilizada no cinema em cenas de especial grandiosidade.

A relação entre estas duas interpretações está no facto de a designação do grupo paramilitar ser uma homenagem que o seu fundador quis prestar ao compositor. Até porque este ficou associado ao regime nazi de Adolf Hitler, que se apropriou da sua música para apologia das ideias antissemíticas (que aliás o próprio Wagner defendia).
Para "libertadores de nazificações", não há melhor banda sonora...

Em suma, temos aqui algumas referências que remetem para a situação atual do ataque à Ucrânia, que seria o motivo que enquadra o tema da guerra, observado pelo "eu" de forma irónica (não, obviamente, como perspetiva humorística, mas como via de apreensão de paradoxos da sua natureza).

Começa com a identificação de Ónuris, o deus egípcio da guerra. Conforme o poema avança, são convocados outros deuses de outras mitologias, que são apresentados como se fizessem parte de um desfile, cada um com os seus atributos. No caso de Ónuris, a barba do segundo verso é uma das características físicas deste deus, que envergava ainda um adorno de penas na cabeça e uma lança. Aqui o traje é composto por "fuzis", um dado que confirma o motivo bélico que já antes apontámos.

Aparece aqui o primeiro de dois parênteses retos que não se fecham – com um efeito semelhante aos dois pontos, mas ainda mais pronunciado em termos visuais – como que a dizer que há algo por descrever que fica por concluir. No vocabulário ("varão", "império", na metonímia "ferros"), há reminiscências de epopeias como Os Lusíadas, um certo tom épico, mas nem exaltado, nem de exaltação de algo, antes austero e intimidante.

Da "toada d'equinos" de Ónuris, passamos ao "corcel" de Ares, o deus grego da guerra, de couraça de bronze, acompanhado de "bandeiras e feras", mas parecendo longe de qualquer objetivo militar, pois limita-se a lançar "grinaldas". Confesso que, numa primeira leitura, erradamente troquei esta palavra por "granadas", influenciado certamente pelo contexto anterior. Seria propositada a escolha desta palavra pela sua sonoridade?
Um jogo de palavras que me parece mais intencional é o das palavras "Ares" com "terras", interpretando o nome do deus como um dos elementos primordiais.

A terceira estrofe abre com frases nominais, fulgurantes no imaginário de violência para que remetem: os "cães d`afiados dentes", os "domadores" coléricos, as "flechas"... Segue-se a referência "Homens", seguida de "Deuses combatentes". Para dizer que, numa batalha, há algo de mítico nestes seres que procuram a sobrevivência em situações adversas? É certo que é perante um grande desafio que se ultrapassam barreiras. Também se pode ler aqui aquilo que encontramos nos épicos clássicos: a presença dos deuses nos campos de batalha, disfarçados de homens, mostrando pelo exemplo que os feitos guerreiros serão porventura aqueles que maior honra poderão trazer. Pelo menos, seria essa a visão homérica e camoniana...

Todavia, esta estrofe não termina sem a presença de um lado humano, de denúncia do sofrimento que a guerra necessariamente implica, através da figura de Afrodite ("Cípris"), a deusa do amor e da beleza.

Para as últimas duas estrofes, está reservada a mitologia nórdica. Em primeiro lugar, surge Týr, combatente corajoso, filho de Odin (referido na estrofe seguinte) e irmão de Thor (conhecido das aventuras da Marvel). Segundo a lenda, a sua mão direita teria sido arrancada pelo lobo Fenrir, que abusou da sua credulidade. Aparece aqui numa espécie de vingança – do "punho" sai fogo e destruição. A ideia de vingança pode ser entrevista na palavra "deixas", cuja ambiguidade permite entendê-la como sinónimo de respostas ou como forma do verbo deixar na 2ª pessoa.

Em segundo lugar, temos o já referido Odin, deus da sabedoria, da guerra e da morte. Normalmente, era representado na companhia de dois corvos, Hugin e Munin, que representam o pensamento e a memória, conceitos que não atribuiríamos imediatamente à guerra, mais associada ao lado instintivo e selvagem do ser humano. O que, pensando bem, talvez não seja totalmente verdade: as estratégias militares são muitas vezes fruto de grande reflexão e de uma certa forma de olhar para o passado, como o prova a visão imperialista que está na origem do conflito na Ucrânia. A racionalidade, em si mesma, não é necessariamente um valor.

Termina o poema como começou, lembrando a todos aqueles que se sentem atraídos pela grandiosidade das paradas militares e dos jogos de guerra que há um quadro horrendo -- e tantas vezes invisível -- das vítimas para quem os dois lados do campo de batalha são igualmente destruidores. Por entre o silêncio da destruição, escuta-se um cântico de glória que mais não é do que o som da "chibata" (repare-se no duplo sentido de "toque"), que recai sobre o "mundo", sobre todos aqueles para quem os hinos bélicos têm a mesma melodia de uma marcha fúnebre.

Criado em: 30/6 7:27
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Re: Comentário a "Epinício de wagner", de atizviegas68
Colaborador
Membro desde:
9/8/2014 8:27
De Açores
Mensagens: 1466

Muito obrigada pelo seu comentário, rico e sábio.

Um abraço

Criado em: 7/7 14:29
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Zita Viegas













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