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Re: A Música que nos inspira
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Músicas que me inspiram...? Quase todas, de uma forma ou de outra, mas, no que toca a fundo musical para escrever, tenho especial preferência por bandas sonoras (trilhas sonoras, no Brasil).

Há muitos compositores dessa área que são extraordinários na forma como facilmente nos transportam para espaços dentro de nós que são propícios à criatividade.

Nas minhas playlists habituais quando estou a escrever, alguns estiveram ou estão muitas vezes presentes: Morricone, Michael Nynman, Danny Elfman, Yann Tiersen...

Destaco aqui um deles que não costuma aparecer nas listas dos mais famosos e que tem um papel muito importante nos filmes de um dos meus realizadores preferidos.
O compositor chama-se Alberto Iglesias e o realizador é Pedro Almodóvar.






Criado em: 3/9 15:09
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Re: A Música que nos inspira
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Olá, Valdevinoxis.

É mais prático -- para quem quiser ver os vídeos que teve a gentileza de partilhar -- que disponibilize o vídeo e não apenas o link.

Se não se importar de ter esse trabalho, basta ir à caixa selecionar, que diz "Texto Plano", e alterar para DHTML Form with xCode.

Vão surgir vários ícones, entre os quais o do YouTube.

Ao clicar nesse ícone, vai-lhe ser pedido o endereço do vídeo e depois as dimensões (basta fazer ok na altura/largura e ele assume o tamanho normal).

Já agora recordo que pode colocar vários vídeos no mesmo post, para evitar que o espaço "Recentes no fórum" fique sobrecarregado.

Muito obrigado pela atenção!

Criado em: 31/8 15:27
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MOVE ON / EM FRENTE
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Não é teoria literária, mas uma reflexão sobre os momentos em que achamos que não temos mais nada a acrescentar ao que os outros já disseram ou fizeram antes de nós.

Trata-se de um excerto de um espetáculo musical intitulado "Sunday in the park with George", em que a música e as letras das canções são da autoria de Stephen Sondheim.



Neste ponto da história, o bisneto do célebre pintor francês George Seurat -- também chamado George, também ele pintor -- enfrenta uma crise de inspiração artística. A imagem da sua bisavó Dot (que também servia de modelo para Seurat) aparece-lhe e indica-lhe o caminho a seguir.
(A tradução em itálico é minha e serve apenas para poderem acompanhar mais facilmente o texto original)

MOVE ON
EM FRENTE

[DOT]
Are you working on something new?
Estás a trabalhar em algo novo?

[GEORGE]
No.
Não.

[DOT, spoken]
That is not like you, George.
Nem pareces tu, George.

[GEORGE]
I've nothing to say
Não tenho nada para dizer.

[DOT, spoken]
You have many things.
Tens sim, muitas coisas.

[GEORGE]
Well, nothing that's not been said.
Nada que não tenha já sido dito antes.

[DOT]
Said by you, though, George...
Mas nada disso foi dito por ti...

[GEORGE]
I do not know where to go.
Não sei para onde ir.

[DOT]
And nor did I...
Nem eu...

[GEORGE]
I want to make things that count,
Quero criar coisas que façam a diferença,
Things that will be new...
Coisas novas...

[DOT]
I did what I had to do...
Eu fiz o que tinha de fazer...

[GEORGE]
What am I to do?
Que hei de fazer?

[DOT]
Move on.
Segue em frente.
Stop worrying where you're going.
Não te preocupes com o destino.
Move on.
Em frente.
If you can know where you're going,
Se souberes exatamente para onde,
You've gone
Não chegas a lado nenhum.
Just keep moving on.
Continua em frente.
I chose, and my world was shaken.
Eu escolhi e todo o meu mundo tremeu.
So what?
E depois?
The choice may have been mistaken,
A escolha pode ter sido um engano,
The choosing was not.
Mas escolher não foi.
You have to move on.
Tens de seguir em frente.
Look at what you want,
Olha para o que desejas,
Not at where you are,
Não para onde estás,
Not at what you'll be.
Não para onde estarás.
Look at all the things you've done for me.
Olha para todas as coisas que fizeste por mim.
Opened up my eyes,
Abriste os meus olhos
Taught me how to see,
Ensinaste-me a observar,
Notice every tree...
A contemplar cada árvore...

[GEORGE]
Notice every tree...
A contemplar cada árvore...

[DOT]
Understand the light
A compreender a luz...

[GEORGE]
Understand the light...
A compreender a luz...

[DOT]
Concentrate on now.
Concentra-te no 'agora'.

[GEORGE]
I want to move on,
Eu quero seguir em frente,
I want to explore the light,
Eu quero explorar a luz,
I want to know how to get through,
Eu quero saber como avançar,
Through to something new,
Avançar para algo novo,
Something of my own.
Algo que seja só meu.

[GEORGE e DOT]
Move on!
Em frente!

[DOT]
Stop worrying if your vision
Não te preocupes se a tua visão
Is new,
É nova,
Let others make that decision
Deixa para os outros essa decisão
They usually do
Como costuma acontecer.
You keep moving on
Tu apenas tens de seguir em frente.

[DOT e GEORGE]
Look at what you've done... / Something in the light...
Repara no que já fizeste... / Algo na luz...
Then at what you want... / Something in the sky...
Antes e naquilo que desejas... / Algo no céu...
Not at where you are... / In the grass...
Não no lugar em que estás... / Na erva...
What you'll be... / Up behind the trees...
Aquilo que serás... / Acima, atrás das árvores...
Look at all the things
Olha para tudo aquilo
You gave to me.
Que me ofereceste.
Things I hadn't looked at 'til now... / Let me give to you...
Coisas que eu ainda não tinha visto... / Deixa-me oferecer-te...
Flower in your hat... / Something in return...
Uma flor no teu chapéu / Algo em troca...
And your smile...
E o teu sorriso...
I would be so pleased... / And the color of your hair
Fico-te tão grata... / E a cor do teu cabelo...

[GEORGE]
And the way you catch the light
E a maneira como reflete a luz
And the care
E o cuidado
And the feeling
E a sensação
And the life
E a vida
Moving on...
Segue em frente...

[DOT]
We've always belonged
Sempre pertencemos
Together!
Um ao outro!

[GEORGE and DOT]
We will always belong
Sempre pertenceremos
Together!
Um ao outro!

[DOT]
Just keep moving on.
Só tens de seguir em frente.
Anything you do
Tudo o que faças
Let it come from you
Deve vir do teu interior
Then it will be new
E será sempre algo novo...
Give us more to see...
Dá-nos mais de ti para vermos...

Criado em: 29/8 20:02
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Revendo os tópicos antigos deste espaço do fórum, vi que houve incentivos de vários utilizadores -- inclusivamente da RoqueSilveira -- para a elaboração de comentários "tendo em conta apenas o texto e nunca o autor".
É o que tento fazer, escolhendo poemas que, a meu ver, têm potencial interpretativo. A crítica sincera de textos sem qualidade também pode ser útil (especialmente para o seu autor), mas é uma tarefa que não me agrada e deixo para outros mais qualificados do que eu.

Criado em: 27/8 7:59
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Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Link para o texto original

"aos caídos da guerra", de RoqueSilveira

há no ar uma boca
com hálito de purga
que não escolhe quem levar
ao poço interior do pranto

entre quatro paredes
o linho acaricia mais um corpo nu
e as sombras somam-se
nas dunas dos dias repetidos

do ontem recortamos flores
às cegas e sem qualquer cor
como algo que ávidos colamos
(ninguém é santo)
entre a febre e um cálice de dor.

seguimos
recusando da realidade, o fim
do verso, do tom, do canto

procura-se a máscara que ajuste
o olho da providência
para tantos enganos, perdições

venham
Hórus, ou a Santíssima Trindade
porque andais, hoje
tão longe da humanidade?

-----------------------------

Percurso de leitura nº 14 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

Estou a acabar de ler "A guerra não tem rosto de mulher", de Svetlana Alexievich (nobel da literatura em 2015), uma obra monumental que tem como cenário a II Guerra Mundial abordada sob uma perspetiva feminina. Trata-se de um texto "coral", ou seja, uma combinação de vários testemunhos recolhidos pela autora, jornalista bielorussa, que também inclui páginas do diário que escreveu enquanto recolhia as memórias de mulheres que participaram ativamente neste conflito. Os relatos são o retrato do que o ser humano tem de mais tenebroso e, ao mesmo tempo, mais sublime. Ao lado de descrições avassaladoras da crueldade no campo de batalha e fora dele, temos momentos de grande coragem, tenacidade e ternura.

Foi por estar ainda perturbado com esta leitura que escolhi comentar este poema de Roque Silveira, sobretudo pelo título, "aos caídos da guerra". Para além do tema óbvio da guerra, há um outro elemento comum entre o poema de Roque Silveira e o livro de Alexievich. O ponto de vista não é o dos vitoriosos nas batalhas, o objetivo não é fazer o louvor dos vencedores, mas sim a procura da alma humana, que existe mesmo nos lugares mais inesperados, como um cenário de conflito militar.

A metáfora da queda tem uma longa tradição e é usada em muitos contextos diferentes. Escolhi dois deles. Por um lado, remete para os anjos caídos bíblicos, condenados eternamente pelo desafio a Deus. Por outro, também encontramos a imagem da queda na expressão "estrela cadente", referente aos astros que, penetrando na atmosfera terrestre, entram em combustão. Em ambas as situações, há implícita a ideia de condenação, como resultado de uma ousadia, da tentativa de ultrapassar limites. Veremos que, neste poema, está presente a ideia de recusa do que é material, da aparência, para se abraçar algo que vai além da mera natureza física, desejo personificado na poesia.

O poema começa com uma "boca" que apenas se revela pelo seu "hálito de purga". As palavras desapareceram, os gritos silenciaram-se. Ficou apenas a exalação de um sacrifício, de uma imolação. Agora só existe esse odor purificador, como um espírito indiferente a quem com ele se encontra, que nos envolve e arrasta "ao poço interior do pranto". A morte ronda estes versos, ou melhor dizendo, as mortes: a dos que fisicamente perderam a vida e a dos que a mantêm, mas estão presos dentro de seu próprio sofrimento.

Esse encarceramento íntimo tem continuidade na segunda estrofe. Num compartimento fechado, vemos um sudário sobre o corpo despojado de tudo o que foi e teve, numa sensualidade fria e absurda ("o linho acaricia mais um corpo nu"). A expressão "mais um" aproxima-o dos demais, a sua individualidade perdeu-se na soma das "sombras", nos "dias repetidos", associados à metáfora nítida e rigorosa das "dunas": um local desértico, sem vida, que -- permanecendo estático -- simula movimento devido à forma ondulatória da areia.

Esta simulação da existência será a memória, que aparece na terceira estrofe. Do passado, restam "flores" falsas, de papel, recortadas e coladas "às cegas", com avidez, referência porventura ao desejo amoroso, que se experimenta como uma doença que nos devora e que nos condena ao sofrimento ("entre a febre e um cálice de dor"). A palavra "cálice" ganha aqui especial expressividade, ela que tanto significado tem para o cristianismo, como metáfora da resignação a um destino superior, cujos desígnios são imperscrutáveis.

Assim sendo, a "realidade" não pode deixar de ser algo que desilude e que se recusa. Ela é o "fim / do verso, do tom, do canto". A palavra "fim" tem, neste contexto, particular ambiguidade, podendo ser interpretado como o desfecho de algo ou como o seu objetivo. No primeiro caso, o mundo exterior, na sua aparente realidade, só existe com o desaparecimento da poesia, como seu oponente; no segundo, é a sua finalidade, apontando o poder transformador da palavra poética na experiência empírica do mundo.

Na minha perspetiva, será este último o significado mais coerente com a forma como o poema termina. As duas últimas estrofes convocam o conceito do divino, associado às expressões "providência", "Hórus" e "Santíssima Trindade", que terão abandonado a humanidade -- à semelhança do grito de Cristo "Eli, Eli, lama sabactani?". Restaria ao Homem, como único meio de autodeterminação, o verbo poético (bem como a "máscara" ou "persona" que lhe está associada), o único meio com a capacidade de eternizar esta criatura frágil e transitória, através da arte.

Deixo-vos ainda duas curiosidades.
Primeiro, em "olho da providência", parece haver uma menção subtil ao "olho de Hórus" [cf. ilustração], uma imagem que ao longo de séculos foi uma espécie de amuleto, por se acreditar que teria o poder de estreitar a ligação entre o corpo e a alma.

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By Jeff Dahl - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3224752


Em segundo lugar, a escolha de Hórus para se colocar ao lado da Santíssima Trindade não é por acaso. Muitos egiptólogos e teólogos cristãos entendem que a história e iconografia do deus Hórus influenciou, em grande medida, o cristianismo. Em ambos os casos, temos a história de alguém que lutou contra o Mal, morreu às suas mãos e ressuscitou. E assim regressamos ao título: "aos caídos da guerra".

Não poderia terminar sem transcrever um excerto da obra que referi no início e de que recomendo a leitura:
"Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma. Por um lado, estudo um homem concreto que vive num tempo concreto, tendo participado em acontecimentos concretos; por outro, preciso de descobrir nele um homem eterno. A trepidação da eternidade."
(in A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich, editora Elsinore, 2016, pp. 21-22)

Criado em: 19/8 20:27
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Comentário a "Todos os nadas", de InchNails
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Link para o texto original

"Todos os nadas", de InchNails

"Com estas flores pensava, doce donzela, adornar teu leito e não espalhá-las sobre tua sepultura."
(Hamlet) Cena I, Ato V

A tempestade quente derruba o nome
Por excursão na casa dos todos os relapsos
De paredes submersas, dos olhos insones
Cada dia é igual ao mesmo que te reparto

Cada hora é contada pra te vender depois
Na escuridão dos cegos que te louvam
Pela ideia confiável de sempre seremos dois
A mentira rarefeita, em asas que te povoam

Até.. um palmo extra do chão pra te fugir
Da indecisão a reinar o tempo e assim, seguir
Uma carta pra deixar acesa, sob fogo fátuo

Uma água de beber até os seus quadros
Por evento da memória irreal, provocada
Nessa soma de todos os dias, todos os nadas


-----------------------------

Percurso de leitura nº 13 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

O título deste poema constitui uma antítese que conjuga as ideias de tudo/nada, que são a base da construção do texto, mas não o único contraste que poderemos encontrar – há outros, como o da água e do fogo, da luz e da escuridão, da permanência e da transitoriedade.

O primeiro verso começa com a palavra "tempestade", que tem uma etimologia curiosa. Começou por estar relacionada com a ideia geral de tempo. Aliás, o mesmo acontece com a palavra "temporal" que, como adjetivo, designa algo relacionado com tempo, mas, como nome, refere-se a um estado meteorológico de grande turbulência.

O lado destruidor deste fenómeno é confirmado, logo a seguir, pelo verbo "derruba" que tem como complemento um "nome", o sinal que nos distingue, a nossa identidade. A quem pertencerá este nome? Uma associação possível seria ao vocábulo "relapsos" – referindo-se a alguém que é obstinado, que insiste em algo, que não desiste mesmo que saiba que se trata de um erro.

A tempestade invade a "casa" destes relapsos e inunda as "paredes" (os fundamentos) do espaço onde vivem esses seres que reincidem nas suas falhas ou transgressões. Talvez por isso é que possuam "olhos insones", condenados a uma eterna vigília.

No último verso desta quadra, há uma nova referência ao tempo ("cada dia"), que é distribuído, compartilhado com um misterioso "tu", que faz a sua primeira aparição no poema.

Assim sendo, conjugando as ideias até agora apresentadas, este "eu" e este "tu" serão, portanto, os "relapsos" "dos olhos insones", que veem o seu "nome", a sua identidade, destruída por essa tempestade, por esses dias iguais que dividem um com o outro, com teimosia, apesar de tudo.

A segunda quadra inicia-se com nova referência temporal – "cada hora" – que é "contada" (contabilizada ou narrada, as duas aceções são possíveis neste contexto). Com que finalidade? Para vender ao "tu", que compra todos esses preciosos momentos, mesmo que o "eu" alerte para uma única certeza: de que "sempre seremos dois", nunca haverá a fusão numa só identidade.

Alusão ao amor? Parece que sim, sobretudo se tivermos em conta a epígrafe do poema, que se refere ao momento da tragédia de Shakespeare em que Hamlet descobre que a sua amada Ofélia está morta. As flores são, ao mesmo tempo, uma homenagem à sua beleza e um tributo ao amor interrompido pela morte. Esta personagem poderia, tal como o sujeito poético, concluir que as ilusões de permanência serão sempre "escuridão dos cegos", "mentira rarefeita"...

"As asas que te povoam", deste ponto de vista, poderão ser lidas como quimeras de eternidade, que o "eu" se apressa em descortinar como apenas "um palmo extra do chão". O sujeito sabe que "reinar o tempo" é impossível, todavia, há uma "indecisão" que talvez tenha a ver com a impetuosidade dos sentimentos, que impedem uma total racionalidade.

O "fogo fátuo" que incendeia uma "carta" é uma imagem muito forte do que este poema pode representar: a notícia simbólica da transitoriedade da existência e das emoções, que inexoravelmente passarão a frágeis imagens ("quadros"), simples "memória irreal", uma soma de "dias" e de "nadas" que, apesar de tudo são "água de beber" – são eles que, nos seus paradoxos e vulnerabilidades, constituem essa heresia (cf. tags) a que damos o nome de vida.

Criado em: 14/8 16:47
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Comentário a "Epinício de wagner", de atizviegas68
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2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Link para o texto original

"Epinício de wagner", de atizviegas68

Ónuris traja fuzis.
Barbas e peito [Varão.
D´império.
Na toada d`equinos.
Com ferros matarão.

Ares de peito em bronze.
Cruza terras.
E, lança grinaldas.
Num corcel a galope.
Leva bandeiras e feras.

Cães d`afiados dentes.
Cólera e domadores.
Com flecha nas laterais.
Homens. [Deuses combatentes.
Cípris lágrimas mortais.

Do punho de Týr.
Soam baionetas.
Fogo em madeixas.
Com balas e genetas.
Deixas fundas valetas.

Com a armada de Odin.
Com seus corvos Hugin e Munin.
Põem o mundo a sofrer.
Com o toque da chibata.
Toca-se o epinício de wagner.

-----------------------------

Percurso de leitura nº 12 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

Há muito que queria comentar um poema desta autora. Há nos seus textos uma sonoridade e um imaginário distintivos, uma certa "dignidade" da palavra, que é usada sempre com precisão e propriedade, com ambiguidades e polissemias sempre à espera de quem as queira encontrar.

Este poema em especial é um festim para quem aprecia uma boa exploração literária, histórica e mitológica. Vou dar o meu melhor, confessando já que muitas das referências que vou trazer para aqui são resultado de uma simples pesquisa na Internet e não de um conhecimento aprofundado sobre os temas em causa. Conto com a compreensão e com a boa vontade da autora para esclarecer algum ponto que, por isso, não tenha sido destacado e que tenha interesse para a interpretação.

Comecemos pelas palavras do título.

"Epinício" era o nome dado a certos poemas da Grécia Clássica, escritos em louvor de uma vitória atlética. Todavia, mais do que descrever a circunstância da competição, o epinício constituía um espaço livre de exaltação da beleza e do sublime, da justiça e do amor.

Quanto a "Wagner", há duas interpretações possíveis, que estão relacionadas.
Por um lado, existe um grupo paramilitar designado Wagner que, segundo o link apontado pela autora, é uma organização de apoio à Rússia nos conflitos em que se encontre envolvida, como é o caso da atual invasão à Ucrânia.
Por outro lado, pode referir-se a Richard Wagner, compositor alemão do séc. XIX, universalmente conhecido sobretudo pela sua marcha nupcial e pela composição "Cavalgada das Valquírias", tantas vezes utilizada no cinema em cenas de especial grandiosidade.

A relação entre estas duas interpretações está no facto de a designação do grupo paramilitar ser uma homenagem que o seu fundador quis prestar ao compositor. Até porque este ficou associado ao regime nazi de Adolf Hitler, que se apropriou da sua música para apologia das ideias antissemíticas (que aliás o próprio Wagner defendia).
Para "libertadores de nazificações", não há melhor banda sonora...

Em suma, temos aqui algumas referências que remetem para a situação atual do ataque à Ucrânia, que seria o motivo que enquadra o tema da guerra, observado pelo "eu" de forma irónica (não, obviamente, como perspetiva humorística, mas como via de apreensão de paradoxos da sua natureza).

Começa com a identificação de Ónuris, o deus egípcio da guerra. Conforme o poema avança, são convocados outros deuses de outras mitologias, que são apresentados como se fizessem parte de um desfile, cada um com os seus atributos. No caso de Ónuris, a barba do segundo verso é uma das características físicas deste deus, que envergava ainda um adorno de penas na cabeça e uma lança. Aqui o traje é composto por "fuzis", um dado que confirma o motivo bélico que já antes apontámos.

Aparece aqui o primeiro de dois parênteses retos que não se fecham – com um efeito semelhante aos dois pontos, mas ainda mais pronunciado em termos visuais – como que a dizer que há algo por descrever que fica por concluir. No vocabulário ("varão", "império", na metonímia "ferros"), há reminiscências de epopeias como Os Lusíadas, um certo tom épico, mas nem exaltado, nem de exaltação de algo, antes austero e intimidante.

Da "toada d'equinos" de Ónuris, passamos ao "corcel" de Ares, o deus grego da guerra, de couraça de bronze, acompanhado de "bandeiras e feras", mas parecendo longe de qualquer objetivo militar, pois limita-se a lançar "grinaldas". Confesso que, numa primeira leitura, erradamente troquei esta palavra por "granadas", influenciado certamente pelo contexto anterior. Seria propositada a escolha desta palavra pela sua sonoridade?
Um jogo de palavras que me parece mais intencional é o das palavras "Ares" com "terras", interpretando o nome do deus como um dos elementos primordiais.

A terceira estrofe abre com frases nominais, fulgurantes no imaginário de violência para que remetem: os "cães d`afiados dentes", os "domadores" coléricos, as "flechas"... Segue-se a referência "Homens", seguida de "Deuses combatentes". Para dizer que, numa batalha, há algo de mítico nestes seres que procuram a sobrevivência em situações adversas? É certo que é perante um grande desafio que se ultrapassam barreiras. Também se pode ler aqui aquilo que encontramos nos épicos clássicos: a presença dos deuses nos campos de batalha, disfarçados de homens, mostrando pelo exemplo que os feitos guerreiros serão porventura aqueles que maior honra poderão trazer. Pelo menos, seria essa a visão homérica e camoniana...

Todavia, esta estrofe não termina sem a presença de um lado humano, de denúncia do sofrimento que a guerra necessariamente implica, através da figura de Afrodite ("Cípris"), a deusa do amor e da beleza.

Para as últimas duas estrofes, está reservada a mitologia nórdica. Em primeiro lugar, surge Týr, combatente corajoso, filho de Odin (referido na estrofe seguinte) e irmão de Thor (conhecido das aventuras da Marvel). Segundo a lenda, a sua mão direita teria sido arrancada pelo lobo Fenrir, que abusou da sua credulidade. Aparece aqui numa espécie de vingança – do "punho" sai fogo e destruição. A ideia de vingança pode ser entrevista na palavra "deixas", cuja ambiguidade permite entendê-la como sinónimo de respostas ou como forma do verbo deixar na 2ª pessoa.

Em segundo lugar, temos o já referido Odin, deus da sabedoria, da guerra e da morte. Normalmente, era representado na companhia de dois corvos, Hugin e Munin, que representam o pensamento e a memória, conceitos que não atribuiríamos imediatamente à guerra, mais associada ao lado instintivo e selvagem do ser humano. O que, pensando bem, talvez não seja totalmente verdade: as estratégias militares são muitas vezes fruto de grande reflexão e de uma certa forma de olhar para o passado, como o prova a visão imperialista que está na origem do conflito na Ucrânia. A racionalidade, em si mesma, não é necessariamente um valor.

Termina o poema como começou, lembrando a todos aqueles que se sentem atraídos pela grandiosidade das paradas militares e dos jogos de guerra que há um quadro horrendo -- e tantas vezes invisível -- das vítimas para quem os dois lados do campo de batalha são igualmente destruidores. Por entre o silêncio da destruição, escuta-se um cântico de glória que mais não é do que o som da "chibata" (repare-se no duplo sentido de "toque"), que recai sobre o "mundo", sobre todos aqueles para quem os hinos bélicos têm a mesma melodia de uma marcha fúnebre.

Criado em: 30/6 7:27
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Re: Poesia sem poetas?
Super Participativo
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2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Fez bem em lembrar que, por vezes, falamos num "admirável mundo novo" muito avançado e esquecemos que, mesmo ao nosso lado, há quem viva sem acesso à tecnologia e até a condições básicas de sobrevivência.

Criado em: 26/6 19:55
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Re: Poesia sem poetas?
Super Participativo
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2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
Não creio que nada venha a substituir a essência que permanece nos textos de um ser humano que arrisca criar algo com a sua verdade e com a sua experiência.

Mas há que reconhecer que, nestas tecnologias, existe algo que nos provoca e indaga, o que pode não ser necessariamente mau...

Criado em: 25/6 12:54
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Poesia sem poetas?
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 159
O assunto que trago, não sendo sobre a língua nem sobre a cultura portuguesas, parece-me de interesse geral, daí ter colocado neste espaço.

Gostava de partilhar convosco um artigo da New Yorker (de anteontem, 21/06/2022), em que se fala nos avanços da Inteligência Artificial:

The New Poem-Making Machinery
(A nova máquina de fazer poemas)

Um desses "avanços" é a escrita automática de poesia.
Bem, não será exatamente aquilo que entendemos por criatividade poética. O que o software faz é utilizar um algoritmo para, a partir de um tema, criar um texto copiando o estilo de um determinado autor.

No artigo, são apresentados exemplos de alguns textos criados automaticamente, como este, em que foi selecionado o tema "Singularidade" e, como estilo a copiar, o do autor Philip Larkin:

The Singularity

The Singularity is coming up
To meet me at the station
With flowers and a smile and
Some bad news.


A Singularidade

A Singularidade está a chegar
Para me encontrar na estação
Com flores e um sorriso e
Algumas más notícias.


Conheço mal a poesia deste autor, mas parecem-me evidentes certas características que encontrei em poemas dele: um estilo aparentemente banal, direto, quase infantil, mas ao mesmo tempo, muito simbólico, quase aforístico.

Enfim, muito do que é escrito por este sistema soa a falso e sem qualidade, mas alguns textos são terrivelmente interessantes.
O autor do artigo, Simon Rich, teme que a I.A. esteja a ir demasiado longe. Termina o seu texto dizendo:

"Em suma, teremos de inventar algo que seja capaz de pensar mais rápido que a I.A. e que a mantenha sob controlo. A essa invenção daremos o nome de 'homem'." [tradução livre]

Criado em: 23/6 7:12
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