12. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Ludiro.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Ludiro.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

(O texto aqui está abreviado com "(...)" por ser muito extenso, para ler na totalidade carregue o link)

Não queria ser este garoto abandonado
Que todos me deixam de lado
Não queria ver um menino beber um refrigerante
As vezes não tenho nem água
Olha aquele tenis maneiro no pé daquele boy com sua mãe
Hah! Não tenho nenhum dos dois
Duro é estar com fome
Passar na frente da padéra e ver tanta coisa gostosa
Nem mesmo uma senhora, uma moeda tem pra me dar
Aquele troquinho do pão
Um pedaço do pão
Saio, sento na calçada e olho pro chão
Vejo uma bituca de cigarro pela metade queimando
Fumei! Fazer o que! Nunca me falaram que faz mal
Não tenho televisão, como vou ver propaganda
"Ministério da Saúde adverte..."
É mesmo está escrito na embalagem
(...)
Hoje eu sou um senhor, tenho minha linda família e nenhum de meus filhos faz o que eu fazia
Não tive infância, mas tive uma mãe, grande mãe
Vencedora, heróica e valente, meu coração hoje ainda sente
Por que quem venceu foi ela e não eu
Por aquele anjo que Deus me deu
Hoje são as lágrimas por ler a fraze de seu descanço
"Aqui jaz D'Maria, a heroína que me salvou"

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=211 © Luso-Poemas

O texto é um monólogo brutalmente honesto, escrito a partir da voz de uma criança que nunca teve infância, e que por isso fala com uma lucidez que nenhum adulto suportaria ter. A crítica aqui não pode ser fria nem distante, porque o próprio poema não o é: ele é um corpo vivo, ferido, que narra a sua queda e a sua sobrevivência sem pedir desculpa, sem pedir piedade, apenas dizendo a verdade crua de quem foi empurrado para a margem antes mesmo de aprender a caminhar.

A força do texto está na oralidade. A escrita não tenta ser literária; tenta ser real. A grafia errada, as frases partidas, a repetição de expressões como “fazer o que”, “não tenho”, “vai ter que querer”, “puta que pariu”, não são defeitos: são marcas de autenticidade. A linguagem é a própria prova da exclusão. O menino não sabe ler, não sabe escrever, não sabe o que é propaganda, não sabe o que é futuro — e o poema faz questão de que o leitor sinta isso na pele. A voz é infantil, mas a experiência é adulta demais. É essa contradição que dá ao texto a sua violência emocional.

O percurso narrativo é uma espiral descendente, mas não é gratuito. Cada queda tem uma causa, cada erro tem um contexto, cada desvio tem uma explicação. O menino não nasce ladrão; nasce com fome. Não nasce viciado; nasce sem pão. Não nasce violento; nasce invisível. O poema insiste nisso: a criminalidade não é escolha, é consequência. A sociedade aparece sempre como ausência — ausência de comida, de afeto, de proteção, de escola, de dignidade. Quando aparece alguém, é para abusar, explorar, usar. O único gesto de bondade verdadeira surge tarde, quase tarde demais, e por isso tem a força de um milagre.

A estrutura do texto é longa, quase exaustiva, e isso é deliberado. O leitor tem de sentir o cansaço, o desespero, a repetição da miséria, a sensação de que não há saída. A narrativa avança como quem tropeça: corre, cai, levanta, foge, repete, tenta sobreviver. A droga entra como brincadeira, como curiosidade, como imitação — e transforma‑se em prisão. A violência entra como necessidade, como chantagem, como desespero — e transforma‑se em destino. O poema mostra como a vida de uma criança pode ser sequestrada por forças que ela não compreende, mas que a moldam até ao osso.

E então surge D’Maria. A entrada dela no texto é quase bíblica: “um anjo me apareceu”. A linguagem muda, o ritmo muda, a respiração muda. Pela primeira vez, há cuidado, há toque, há comida, há banho, há nome. A criança volta a ser criança. O poema transforma‑se num hino à maternidade que salva, que resgata, que reconstrói. E o mais belo é que o narrador reconhece isso sem idealizar-se: ele diz claramente que quem venceu foi ela, não ele. A humildade desse reconhecimento é o que dá ao final a sua grandeza.

O fecho, com a lápide de D’Maria, é devastador. Não há sentimentalismo; há gratidão. Não há exagero; há verdade. O menino que não tinha mãe termina o poema como homem que teve uma — e isso basta para que a vida dele tenha sido salva. O texto inteiro é um testemunho de que a salvação, quando existe, vem sempre de um gesto humano, nunca de uma instituição, nunca de um sistema, nunca de uma estrutura. Vem de alguém que decide ver o invisível.

Lido como obra literária, este texto é um retrato social feroz, uma denúncia sem panfleto, uma narrativa de sobrevivência que não romantiza nada. Lido como voz, é um grito que atravessa décadas de desigualdade e abandono. Lido como poema, é um corpo que se ergue da lama e aprende a dizer “mãe” pela primeira vez.

Criado em: Hoje 8:24:18
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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