129. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Mel de Carvalho. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Mel de Carvalho.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Não, já não pairam pássaros a trespassar o luto do céu. Nem sequer as gaivotas pontilham areia branda em Ilhas submersas. Não, nada bule em danças, volúpias refulgentes de cor. Nada se agita para além de uma vagarosa melodia infinita dum tempo perpetuamente vago, a povoar no afago, lapas lisas, seculares, esculpidas p’lo bisel da agitação.... Guio-me pelos sulcos elípticos de vagas, pelas ruas sempre desertas dos silêncios. Pelos olhares viajantes que encontro nas pupilas das crianças. Neles reencontro flores perenes, de papel, e o encanto ondulante de vales e serranias. Caudais de rios tecidos de águas doces de mel. E cavalos urgentes. Agarro-me às suas crinas. Sejam elas espigas torcidas p’los ventos, na bolina do resto das nossas vidas. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=4320 © Luso-Poemas O poema constrói‑se sobre uma negação inaugural que funciona como eixo rítmico e emocional: “Não, já não pairam pássaros…” . Esta recusa do movimento, esta suspensão do vivo, instala um luto atmosférico que não é melodramático, mas mineral, quase geológico. A ausência das gaivotas que “pontilham areia branda em Ilhas submersas” Página atual reforça a sensação de um mundo onde o gesto natural foi retirado, deixando apenas o eco do que já foi. A repetição do “Não” cria uma cadência que cava o silêncio, como se cada negativa aprofundasse o vazio onde o poema respira. A segunda secção aprofunda essa imobilidade com uma musicalidade lenta, arrastada, coerente com a imagem de “uma vagarosa melodia infinita / dum tempo perpetuamente vago” . A escolha lexical é precisa: “bisel da agitação” é uma das imagens mais fortes, porque transforma a própria agitação — aquilo que deveria perturbar — numa ferramenta de escultura da quietude. Há aqui um paradoxo subtil, um oximoro que não se exibe, mas trabalha subterraneamente na textura do poema. As “lapas lisas, seculares” reforçam a dimensão temporal: o poema não fala apenas de silêncio, mas de eras de silêncio. Quando o sujeito poético emerge, fá-lo sem psicologismo, guiando-se “pelos sulcos elípticos de vagas” e “pelas ruas sempre desertas dos silêncios” . A geografia é interior, mas nunca confessional; é uma cartografia de ausência. A entrada das crianças introduz um contraponto luminoso: “olhares viajantes” que devolvem ao poema uma vibração que não é ingénua, mas resistente. As “flores perenes, de papel” Página atual criam uma tensão entre fragilidade e permanência — o papel é efémero, mas a perenidade é simbólica. O verso “E cavalos urgentes” irrompe como uma súbita aceleração, uma imagem que rasga a placidez anterior e devolve ao texto um impulso vital. O fecho ganha agora uma força maior com o último verso recuperado: “Sejam elas espigas torcidas / p’los ventos, na bolina do resto das nossas vidas” . A transfiguração é plena: as crinas dos cavalos tornam‑se espigas, o animal torna‑se colheita, e o vento — que antes era ausência — torna‑se movimento que acompanha a vida inteira. A expressão “na bolina” é particularmente feliz: traz a navegação para dentro do campo agrícola, unindo mar e terra, deslocação e enraizamento. O poema termina, assim, num gesto de aderência ao vivo, não como resolução, mas como sobrevivência poética. O conjunto mantém uma coerência imagética rara: mar, silêncio, infância, vento, tempo — tudo se articula numa mesma respiração lenta, mas firme. O ritmo está bem controlado, a sintaxe serve a atmosfera, e as metáforas surgem orgânicas, nunca decorativas. O poema sustém a sua própria gravidade sem perder leveza, e o último verso acrescenta-lhe a exacta vibração que antes faltava: uma espécie de rumo.
Criado em: Hoje 17:13:21
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma |
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