182. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Filipa Ferreira.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Filipa Ferreira.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Assumo isto Hoje, porque simplesmente não sei se o poderei assumir amanhã!
Tanto que se deixa por assumir…
O amanhã não é certo.
Assumo irreversivelmente o tanto que nunca disse,
e o tudo que sempre pensei!
Mais que isso, assumo a epiderme!
Assumo aquele arrepio da espinha,
Aqueles poros envergonhados.
Isto não é nenhuma conjectura,
É apenas um qualquer acto irracional.
Vicio-me neste bicho de sentir
Arrumo de vez com o preconceito
Forro o juízo
Esse tino que me arma
Desarmo por completo o definido
Estou enleada em transparência
Completamente envolvida
Tudo porque quero
Porque definitivamente pretendo
A eloquência
Daquelas bem expressivas
E a cair de Loucura
Porque irreversivelmente assumi
Assumo
ASSUMO

Drogo-me de Insanidade, com muitas gramas de Emoção…
Ahhh que Prazer dos Diabos é esta ressaca da Diferença!
Este orgasmo de Demência!

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=6364 © Luso-Poemas

Este texto assume-se desde o primeiro verso como um manifesto visceral, um acto de exposição sem filtros, onde a voz poética se coloca num limiar entre confissão e performance. A frase inicial — “Assumo isto Hoje, porque simplesmente não sei se o poderei assumir amanhã!” — estabelece o tom de urgência e de instabilidade temporal: o eu lírico escreve como quem tenta fixar algo que está sempre prestes a desfazer-se. A oscilação entre maiúsculas e minúsculas, entre a solenidade e a espontaneidade, reforça essa tensão entre o impulso e a consciência do impulso.

Há uma cadência quase respiratória na enumeração: “Assumo irreversivelmente o tanto que nunca disse, / e o tudo que sempre pensei!”. O poema trabalha bem esta duplicidade — o não-dito e o pensado — como se a linguagem fosse finalmente obrigada a confessar o que sempre reteve. A seguir, a epiderme torna-se território poético: “Assumo a epiderme! / Assumo aquele arrepio da espinha, / Aqueles poros envergonhados.” Aqui, o corpo não é metáfora: é o próprio campo de batalha da emoção. A fisicalidade é eficaz, porque não é decorativa; é sintoma.

A secção central do poema é a mais forte: “Vicio-me neste bicho de sentir / Arrumo de vez com o preconceito / Forro o juízo / Esse tino que me arma / Desarmo por completo o definido”. A sequência é ritmada, quase martelada, e cria uma progressão clara: sentir → desfazer preconceito → proteger o juízo → desmontar o que estava definido. É um movimento de libertação que não é ingénuo; é consciente, quase programático. A expressão “bicho de sentir” é particularmente feliz: dá ao sentimento uma animalidade, uma força autónoma, algo que se aloja e se alimenta dentro do sujeito.

A imagem “Estou enleada em transparência / Completamente envolvida” é paradoxal e eficaz: a transparência, que deveria ser ausência de véu, torna-se aqui uma forma de aprisionamento. O poema trabalha bem esta contradição — querer ser clara e, ao mesmo tempo, estar presa na própria claridade. A repetição de “Porque” cria um crescendo que desemboca na palavra-chave: “A eloquência / Daquelas bem expressivas / E a cair de Loucura”. A loucura aqui não é patologia; é intensidade, excesso, transbordamento. O poema assume esse excesso como método.

O fecho — “Drogo-me de Insanidade, com muitas gramas de Emoção… / Ahhh que Prazer dos Diabos é esta ressaca da Diferença! / Este orgasmo de Demência!” — é deliberadamente hiperbólico. Há um risco aqui: o texto aproxima-se do limite onde a intensidade pode tornar-se caricatura. Mas, no contexto do poema, funciona porque é coerente com o percurso emocional construído desde o início. A linguagem do vício, da droga, da ressaca e do orgasmo é usada como metáfora para a experiência de sentir em excesso. Não é subtil — mas não pretende ser. É um poema que vive do excesso, e o excesso é o seu território natural.

Do ponto de vista formal, há alguns deslizes menores: a pontuação é irregular, mas isso faz parte da estética do texto; a oscilação entre maiúsculas e minúsculas poderia ser mais controlada para reforçar intencionalidade; e a palavra “acto” poderia ganhar mais força se estivesse integrada num verso menos explicativo. Ainda assim, a voz é consistente, o ritmo é pulsante, e a energia emocional é autêntica.

No conjunto, é um poema de intensidade assumida, que trabalha bem a fisicalidade da emoção e a performatividade do assumir. Não é um texto que procura equilíbrio — procura impacto. E consegue-o.

Criado em: Hoje 8:02:53
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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