205. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - teresacuco. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de teresacuco.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. O relógio da cozinha há muito que gastou a hora de chegares e a comida arrefeceu e a gata cansou-se de esperar e adormeceu na cadeira (e tu que não vens!) Já são horas meu amor olhei para a mesa dez vezes para ver o que faltava e já gastei a rua à força de a olhar (e ia jurar que eras tu que vinhas lá…) mas tu não vens é hoje que tu não vens… e a noite já escorreu e tapou as casas e eu sei amor eu sei que não são teus estes passos que ouço porque a esses eu conheço de cor (são pausados e leves) mas mesmo assim não resisto e atento nesse andar mas não …tu já não vens… é hoje que já não vens… e um frio gélido cai como uma nódoa no vestido que eu ia usar… e a pele envelhece cem anos e todos os pensamentos me cegam e todas as veias se secam e todos os rios me morrem na garganta quando os passos param e alguém me bate à porta e me diz que nunca mais vais voltar! Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7330 © Luso-Poemas Este poema trabalha a espera como corrosão — não apenas temporal, mas física, doméstica, corporal. A força do texto reside na forma como a casa se torna organismo: o relógio “gastou a hora”, a comida “arrefeceu”, a gata “cansou‑se de esperar”. Há aqui uma progressão de desgaste que começa no inanimado, passa pelo quotidiano e termina no corpo da própria narradora. A estrutura é circular, com repetições que funcionam como pulsações de ansiedade (“e tu que não vens!”, “é hoje que tu não vens…”), e que criam um crescendo emocional até ao golpe final. A pontuação mínima e o uso de parênteses são escolhas eficazes: os parênteses funcionam como murmúrios interiores, quase confissões que a narradora não ousa dizer em voz alta. Esse recurso dá ao poema uma camada de intimidade e fragilidade que o fortalece. O verso “e ia jurar que eras tu que vinhas lá…” é exemplar: a suspensão final prolonga a ilusão, e o leitor sente o desmoronar dessa esperança. O poema trabalha bem o campo semântico do frio e da morte: “a noite já escorreu”, “um frio gélido cai como uma nódoa”, “a pele envelhece cem anos”, “todos os rios me morrem na garganta”. São imagens fortes, coerentes entre si, que traduzem a passagem abrupta da expectativa para o luto. A imagem da nódoa no vestido é particularmente feliz — mancha o que seria um momento de encontro, transformando o desejo em luto antecipado. Há também um domínio rítmico interessante: versos curtos, sincopados, que imitam o andar que a narradora tenta reconhecer. A quebra final — “e me diz que nunca mais vais voltar!” — é abrupta, quase brutal, e cumpre a função de rasgar o poema, como se a linguagem já não pudesse sustentar a espera. Do ponto de vista técnico, o texto está sólido. Apenas sugeriria atenção a duas pequenas questões: – “um frio gélido” é redundante; a força da imagem mantém‑se se escolher apenas um dos termos. – “a pele envelhece cem anos” é eficaz, mas talvez demasiado literal dentro de um poema que trabalha tão bem imagens mais subtis; ainda assim, não compromete o conjunto. No todo, é um poema de grande intensidade emocional, com um domínio claro da progressão dramática e da construção imagética. A espera transforma‑se em narrativa, e a narrativa em perda — sem melodrama, apenas com a precisão de quem sabe que a tragédia está no quotidiano.
Criado em: Hoje 8:11:36
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