206. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - pauloroberto. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de pauloroberto.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Não venho rogar a Deus misericórdia em perder-te Nem implorar a ti algum resquício de amor. Se intumescido saio do meu ócio aos ares de pavor, Não e por falta sua, menos muito por querer-te. Se hora ergo os olhos, é sem intenção de ver-te, Em que juntos deles caminham com total palor Os passos meus enegrecidos nas visões de horror A caminho do trágico destino de não ter-te! Se, impávido desisto desse tédio de viver, Quando a coragem de secar os olhos me toma, Não creia nos atos descabidos que ainda podes ver, Conquanto me despeço já do futuro que tiver! Quando salto da janela e do medo que me doma, Não é pra te encontrar, mas pra morrer! Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7390 © Luso-Poemas Este soneto trabalha a dor amorosa através de uma retórica clássica, com ecos evidentes da lírica portuguesa dos séculos XVI–XVIII, mas filtrada por uma sensibilidade contemporânea que intensifica o desespero até ao limite da autodestruição. A estrutura formal — dois quartetos e dois tercetos — é respeitada, e o poema sustenta um tom elevado, quase declamatório, que combina bem com o vocabulário arcaizante (“intumescido”, “palor”, “impávido”, “descabidos”). Há aqui uma intenção clara de recuperar a solenidade trágica da poesia antiga, mas aplicada a um sujeito moderno, emocionalmente exausto. O primeiro quarteto estabelece a recusa: não há súplica a Deus nem ao amado. A força está precisamente nesse paradoxo — o eu lírico afirma não implorar, mas todo o poema é uma implosão emocional que desmente essa contenção. O verso “Se intumescido saio do meu ócio aos ares de pavor” é dos mais expressivos: a imagem do corpo que incha, que se deforma, traduz fisicamente o impacto da perda. É uma imagem ousada, quase grotesca, mas eficaz dentro do tom dramático. O segundo quarteto aprofunda a alienação: “ergo os olhos, é sem intenção de ver-te”, e os passos “enegrecidos” caminham para um destino trágico. A cor escura, o horror, o palor — tudo converge para um campo semântico de morte e dissolução. A métrica aqui é fluida, mas há momentos em que o ritmo se torna mais pesado, como se imitasse o arrastar do corpo rumo ao fim. Nos tercetos, o poema abandona qualquer contenção e assume a vertigem suicidária. A frase “desisto desse tédio de viver” é brutal na sua simplicidade, e contrasta com o vocabulário mais elaborado do resto do texto. A imagem final — o salto da janela — é construída com precisão: não há romantização, não há reencontro, apenas a afirmação seca de que o gesto não é para encontrar o outro, mas para morrer. A quebra sintática do último verso reforça o impacto. Do ponto de vista técnico, há alguns pontos a considerar: – “Não e por falta sua”: falta acento em “é”. – “Se hora ergo os olhos”: “hora” deveria ser “agora” ou “se ora”, dependendo da intenção. “Hora” não funciona semanticamente. – A métrica oscila bastante; não é um problema se não houver intenção de regularidade clássica, mas vale notar que o tom do poema sugere que talvez a regularidade fosse desejável. – O vocabulário elevado funciona, mas por vezes aproxima-se do excesso (“intumescido”, “palor”, “impávido”, “descabidos”, “conquanto”). A densidade é coerente, mas convém vigiar para não cair no barroquismo involuntário. No conjunto, é um soneto forte, com uma teatralidade bem construída e um desfecho que não cede ao sentimentalismo. A morte não é metáfora: é literal, seca, final. O poema assume essa violência sem hesitação, e isso dá-lhe uma autenticidade rara dentro do registo clássico.
Criado em: Hoje 8:14:20
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