247. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Manuela Fonseca. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Manuela Fonseca.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. As searas não existiam E o pão não cheirava a terra A mãe-velha embalava os ossos Mal embrulhados Na carne negra, suja Beijada de artrópodes. A insuficiência Espreitara o 10º mundo E as crianças brotavam Sob o signo maligno Da Fome. Era tarde… A noite descera sobre a mãe-velha E no chão agreste Nu de sementes Picavam-lhe os pés inchados De lágrimas, dores E revoltas! Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=9435 © Luso-Poemas O poema inicia-se com uma negação que já é sentença: “As searas não existiam / E o pão não cheirava a terra”. A ausência de searas não é apenas paisagem; é o colapso do ciclo vital, a ruptura entre o humano e o chão. A imagem do pão sem cheiro é particularmente eficaz, porque desloca a fome para o plano sensorial — não é só falta de alimento, é falta de mundo. A mãe‑velha surge como corpo que embala ossos, e a expressão “mal embrulhados / na carne negra, suja / beijada de artrópodes” cria uma violência imagética que não se explica, apenas se impõe. A escolha de “beijada” para os artrópodes é inteligente: o verbo suaviza o horror, tornando-o mais perturbador. A “insuficiência” que espreita o “10º mundo” amplia o poema para uma dimensão quase cosmológica. Não é apenas África, não é apenas miséria — é um mundo deslocado, um mundo que não pertence ao mapa dos outros mundos. As crianças que “brotavam / sob o signo maligno / da Fome” são uma das imagens mais fortes do texto: nascer sob um signo é nascer já marcado, já condenado. Aqui o poema atinge uma densidade simbólica que o sustenta. A frase “Era tarde…” funciona como um corte, uma dobra temporal que anuncia a descida da noite. A noite sobre a mãe‑velha não é descanso; é agravamento. O chão “agreste / nu de sementes” reforça a esterilidade absoluta, e os pés inchados picados por dores e revoltas são uma imagem que mistura o físico e o histórico — a dor do corpo e a dor do tempo. O poema mantém coerência imagética e tonal, sem dispersão. A linguagem é dura, mas não gratuita; cada escolha lexical contribui para a construção de um cenário onde a fome é personagem, destino e maldição. A única fragilidade está talvez na conclusão abrupta: o poema termina num ponto alto de intensidade, mas sem uma imagem final que o feche com a mesma força da abertura. Ainda assim, essa suspensão pode ser lida como parte da própria lógica da fome — nada se resolve, nada se conclui, tudo permanece aberto. É um texto sólido, com uma voz que sabe trabalhar a brutalidade sem cair no melodrama, e que transforma a mãe‑velha numa figura quase mítica, carregando o peso de um mundo que nunca lhe deu sementes.
Criado em: Hoje 18:49:34
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