266. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Miguel Barroso. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Miguel Barroso.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca em prateleiras de mel que escorrem para quem amamos e de dentro das sedas que lambem os livros respiras tu em eternos sopros de dádiva e saber em cascos húmidos de humanidade sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca com livros livres de lombadas e paginação perto das memórias intemporais do amor em que se cedem cópulas alquímicas e misteriosas sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca em que se a cuidas, casa-alma, dita-la para mim e o graal surge, em forma de beijo imponente, cristalino, honesto e unicelular (são as salivas dos livros que não li e me mostras os desejos de sorver o palato da tua biblioteca) e sem falar mais de livros, falemos de amor… aquele tabu em que se diz nada se poder definir pois eu defino o que sinto na saliva das palavras - simbiose comunicacional - que o amor sou eu em forma de nós como um copo de mar sem peixe como um copo de mar com peixe como mares sem ou com copos porque o graal eu descobri é seda preta e distinta, no recolher sóbrio dos teus medos na conversão una das tuas expectativas e desejos ensejo então fundir abraçar a morte física como gás que respiras porque posso porque sim porque quero - lembra-te que sou alquimista – e da distância faço a cama de lavado e dos ossos obtenho abraços e de todas as bibliotecas de todas as existências em todos os mundos manda o amor e o amor sou eu e eu apanho a natureza no coração com uma rede indestrutível e sôfrego toco-te um dedo o dedo sensível com que intuis as coisas do mundo de todos os mundos e se há mundos que desconheces, eu - alquimista-bibliotecário - dilacero o peito rasgo-me ao meio sou um corpo-casa da alma-biblioteca lê o que quiseres tirem-te o pão, tirem-te membros, tirem-te alegria, tirem-te o que amas, tirem-te a luz e a esperança, tirem-te o riso e aquilo a que chamas de vida, tirem-te. a ti. façam o que fizerem, tirem-te o que te tirarem, nada disso conta pois vens a meu peito aberto e lês o que quiseres … e se nada nessas palavras te afagam encosta o teu rosto ao sangue quente do meu peito e segredar-te-ei que te amo que tu és tu e que és quem amo livro de mim livro de ti livres em nós, no amor universal Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=10599 © Luso-Poemas Este poema constrói‑se como uma arquitectura simbólica expansiva, onde a metáfora da biblioteca funciona como eixo ontológico e emocional. A repetição anafórica de “sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca” estabelece um mantra estrutural que não é mero recurso estilístico: é uma convocação de interioridade, uma tentativa de organizar o caos afectivo através de imagens de ordem — prateleiras, sedas, livros, graal — que, paradoxalmente, se revelam fluidas, húmidas, escorridas, vivas. A biblioteca não é estática: é orgânica, táctil, quase carnal. A primeira estrofe trabalha com uma fusão sensorial intensa: “prateleiras de mel”, “sedas que lambem os livros”, “cascos húmidos de humanidade”. Há aqui uma erotização da linguagem que não cai no óbvio, porque o erotismo surge como textura, não como gesto explícito. O mel escorre, a seda lambe, os cascos humedecem — tudo se move, tudo respira. O poema instala, desde cedo, uma ideia de conhecimento como corpo, e de corpo como arquivo. A segunda repetição da biblioteca introduz uma variação conceptual: livros “livres de lombadas e paginação”, libertos da forma, próximos das “memórias intemporais do amor”. Esta secção é mais abstracta, menos imagética, e funciona como ponte entre o sensorial e o metafísico. A expressão “cópulas alquímicas e misteriosas” é forte, mas não excessiva, porque se inscreve na lógica alquímica que o poema vai consolidar mais adiante. A terceira repetição é a mais eficaz, porque desloca a biblioteca para o domínio relacional: “se a cuidas, casa‑alma, dita‑la para mim”. Aqui, o poema abandona a contemplação e entra na reciprocidade. O graal surge “em forma de beijo”, cristalino, honesto, unicelular — uma imagem que condensa pureza, origem e unidade. O beijo como graal é uma metáfora bem conseguida, porque transforma o gesto íntimo em revelação. O parêntesis que segue — “são as salivas dos livros que não li e me mostras” — é um dos momentos mais interessantes do texto. A saliva, que poderia ser excessiva, é aqui usada com precisão simbólica: é o fluido da transmissão, da leitura partilhada, do desejo de sorver o palato da biblioteca do outro. É uma imagem ousada, mas coerente com o universo sensorial já estabelecido. A secção que abandona os livros para “falar de amor” é deliberadamente provocatória: o poema reconhece o tabu da definição do amor, mas avança para uma definição própria, assumidamente idiossincrática. “O amor sou eu / em forma de nós” é uma formulação forte, que evita o sentimentalismo porque se ancora numa lógica de fusão identitária. As imagens seguintes — “como um copo de mar sem peixe / como um copo de mar com peixe / como mares sem ou com copos” — trabalham com variação semântica e quase lúdica, mas mantêm a coerência: o amor é forma, conteúdo e recipiente, simultaneamente. A secção alquímica é das mais bem conseguidas: “seda preta e distinta”, “recolher sóbrio dos teus medos”, “conversão una das tuas expectativas e desejos”. Há aqui uma depuração da linguagem, uma contenção que contrasta com a exuberância inicial. O verso “abraçar a morte física como gás que respiras” é arriscado, mas funciona porque não é literal: é alquímico, simbólico, metafórico. O poema cresce em intensidade quando assume a voz do alquimista‑bibliotecário, que “dilacera o peito”, “rasga‑se ao meio”, “sou um corpo‑casa da alma‑biblioteca”. Estas imagens são fortes, mas não gratuitas: são coerentes com a ideia de que o amor é arquivo, corpo, casa, rasgo, entrega. A repetição de “lê o que quiseres” é um gesto de abertura radical, que prepara o bloco seguinte. A secção dos “tirem‑te” é um crescendo dramático que, apesar da intensidade, não cai no melodrama. A enumeração é dura, mas funcional: constrói a ideia de despojamento absoluto, para depois afirmar que nada disso importa porque o outro pode sempre “ler” no peito aberto do eu lírico. É uma imagem poderosa, que devolve ao poema a sua metáfora central: o corpo como livro. O fecho — “encosta o teu rosto ao sangue quente do meu peito / e segredar‑te‑ei que te amo / que tu és tu / e que és quem amo / livro de mim / livro de ti / livres em nós” — é eficaz porque não tenta resolver o poema: apenas o fecha com coerência simbólica. A repetição de “livro” e “livres” cria uma simetria final que reforça a ideia de fusão e liberdade. Formalmente, o poema é consistente, com ritmo fluido, imagens fortes e uma coerência simbólica rara. Há ousadia, mas controlada; há erotismo, mas sublimado; há metafísica, mas ancorada no corpo. A única fragilidade está em pequenas oscilações sintácticas que poderiam ser depuradas, mas que não comprometem a força global do texto. É um poema vasto, sensorial, alquímico, que trabalha com uma metáfora central de forma inteligente e persistente.
Criado em: Hoje 21:46:43
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