266. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Miguel Barroso.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Miguel Barroso.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em prateleiras de mel que escorrem para quem amamos
e de dentro das sedas que lambem os livros respiras tu
em eternos sopros de dádiva e saber
em cascos húmidos de humanidade

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
com livros livres de lombadas e paginação
perto das memórias intemporais do amor
em que se cedem cópulas alquímicas e misteriosas

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em que se a cuidas, casa-alma, dita-la para mim
e o graal surge, em forma de beijo
imponente, cristalino, honesto e unicelular

(são as salivas dos livros que não li e me mostras
os desejos de sorver o palato da tua biblioteca)

e sem falar mais de livros,

falemos de amor…

aquele tabu em que se diz nada se poder definir

pois eu defino o que sinto na saliva das palavras - simbiose comunicacional - que o amor sou eu
em forma de nós
como um copo de mar sem peixe
como um copo de mar com peixe
como mares sem ou com copos

porque o graal eu descobri
é seda preta e distinta, no recolher sóbrio dos teus medos
na conversão una das tuas expectativas e desejos

ensejo então fundir
abraçar a morte física como gás que respiras

porque posso

porque sim

porque quero

- lembra-te que sou alquimista –

e da distância faço a cama de lavado
e dos ossos obtenho abraços
e de todas as bibliotecas de todas as existências em todos os mundos manda o amor

e o amor sou eu

e eu apanho a natureza no coração com uma rede indestrutível
e sôfrego toco-te um dedo
o dedo sensível com que intuis as coisas do mundo de todos os mundos

e se há mundos que desconheces, eu - alquimista-bibliotecário -
dilacero o peito

rasgo-me ao meio

sou um corpo-casa da alma-biblioteca

lê o que quiseres


tirem-te o pão,
tirem-te membros,
tirem-te alegria,
tirem-te o que amas, tirem-te a luz
e a esperança, tirem-te o riso e aquilo a que chamas de vida,
tirem-te. a ti.

façam o que fizerem, tirem-te o que te tirarem,
nada disso conta
pois vens a meu peito aberto e lês o que quiseres



e se nada nessas palavras te afagam
encosta o teu rosto ao sangue quente do meu peito
e segredar-te-ei que te amo

que tu és tu

e que és quem amo

livro de mim

livro de ti


livres em nós,
no amor universal

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=10599 © Luso-Poemas

Este poema constrói‑se como uma arquitectura simbólica expansiva, onde a metáfora da biblioteca funciona como eixo ontológico e emocional. A repetição anafórica de “sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca” estabelece um mantra estrutural que não é mero recurso estilístico: é uma convocação de interioridade, uma tentativa de organizar o caos afectivo através de imagens de ordem — prateleiras, sedas, livros, graal — que, paradoxalmente, se revelam fluidas, húmidas, escorridas, vivas. A biblioteca não é estática: é orgânica, táctil, quase carnal.

A primeira estrofe trabalha com uma fusão sensorial intensa: “prateleiras de mel”, “sedas que lambem os livros”, “cascos húmidos de humanidade”. Há aqui uma erotização da linguagem que não cai no óbvio, porque o erotismo surge como textura, não como gesto explícito. O mel escorre, a seda lambe, os cascos humedecem — tudo se move, tudo respira. O poema instala, desde cedo, uma ideia de conhecimento como corpo, e de corpo como arquivo.

A segunda repetição da biblioteca introduz uma variação conceptual: livros “livres de lombadas e paginação”, libertos da forma, próximos das “memórias intemporais do amor”. Esta secção é mais abstracta, menos imagética, e funciona como ponte entre o sensorial e o metafísico. A expressão “cópulas alquímicas e misteriosas” é forte, mas não excessiva, porque se inscreve na lógica alquímica que o poema vai consolidar mais adiante.

A terceira repetição é a mais eficaz, porque desloca a biblioteca para o domínio relacional: “se a cuidas, casa‑alma, dita‑la para mim”. Aqui, o poema abandona a contemplação e entra na reciprocidade. O graal surge “em forma de beijo”, cristalino, honesto, unicelular — uma imagem que condensa pureza, origem e unidade. O beijo como graal é uma metáfora bem conseguida, porque transforma o gesto íntimo em revelação.

O parêntesis que segue — “são as salivas dos livros que não li e me mostras” — é um dos momentos mais interessantes do texto. A saliva, que poderia ser excessiva, é aqui usada com precisão simbólica: é o fluido da transmissão, da leitura partilhada, do desejo de sorver o palato da biblioteca do outro. É uma imagem ousada, mas coerente com o universo sensorial já estabelecido.

A secção que abandona os livros para “falar de amor” é deliberadamente provocatória: o poema reconhece o tabu da definição do amor, mas avança para uma definição própria, assumidamente idiossincrática. “O amor sou eu / em forma de nós” é uma formulação forte, que evita o sentimentalismo porque se ancora numa lógica de fusão identitária. As imagens seguintes — “como um copo de mar sem peixe / como um copo de mar com peixe / como mares sem ou com copos” — trabalham com variação semântica e quase lúdica, mas mantêm a coerência: o amor é forma, conteúdo e recipiente, simultaneamente.

A secção alquímica é das mais bem conseguidas: “seda preta e distinta”, “recolher sóbrio dos teus medos”, “conversão una das tuas expectativas e desejos”. Há aqui uma depuração da linguagem, uma contenção que contrasta com a exuberância inicial. O verso “abraçar a morte física como gás que respiras” é arriscado, mas funciona porque não é literal: é alquímico, simbólico, metafórico.

O poema cresce em intensidade quando assume a voz do alquimista‑bibliotecário, que “dilacera o peito”, “rasga‑se ao meio”, “sou um corpo‑casa da alma‑biblioteca”. Estas imagens são fortes, mas não gratuitas: são coerentes com a ideia de que o amor é arquivo, corpo, casa, rasgo, entrega. A repetição de “lê o que quiseres” é um gesto de abertura radical, que prepara o bloco seguinte.

A secção dos “tirem‑te” é um crescendo dramático que, apesar da intensidade, não cai no melodrama. A enumeração é dura, mas funcional: constrói a ideia de despojamento absoluto, para depois afirmar que nada disso importa porque o outro pode sempre “ler” no peito aberto do eu lírico. É uma imagem poderosa, que devolve ao poema a sua metáfora central: o corpo como livro.

O fecho — “encosta o teu rosto ao sangue quente do meu peito / e segredar‑te‑ei que te amo / que tu és tu / e que és quem amo / livro de mim / livro de ti / livres em nós” — é eficaz porque não tenta resolver o poema: apenas o fecha com coerência simbólica. A repetição de “livro” e “livres” cria uma simetria final que reforça a ideia de fusão e liberdade.

Formalmente, o poema é consistente, com ritmo fluido, imagens fortes e uma coerência simbólica rara. Há ousadia, mas controlada; há erotismo, mas sublimado; há metafísica, mas ancorada no corpo. A única fragilidade está em pequenas oscilações sintácticas que poderiam ser depuradas, mas que não comprometem a força global do texto.

É um poema vasto, sensorial, alquímico, que trabalha com uma metáfora central de forma inteligente e persistente.

Criado em: Hoje 21:46:43
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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