267. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Locus.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Locus.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Soltar
Como se soltam palavras?
Palavras soltas
Palavras soletradas pelo brilho
No brilho solto de assim serem palavras?
Como se soltam palavras
Carregadas de ausência
Na presença de assim não serem palavras?
Soltar em palavras
Talvez assim...
Soltar em palavras
O que as palavras não ousam soltar
Pois soltas ou não soltas
As palavras são o soltar de poucas palavras.
Providência escrita do não escrito
No papel excelso de assim não ser papel...
Como
Como soltar palavras?
Como soletrar palavras?
Como verbalizar?
Verbalizar verbos abreviados,
Encurtados pelo que não é verbo,
Pelo que não é abreviatura,
Pelo que assim não é só palavra?
Não soltar
Talvez assim...
Não soltar de palavras,
De palavras soltas ou soletradas
Pelo próprio verbalizar.
Palavras só se sentem palavras,
E quando divididas em sílabas,
Ficam pa-la-vras,
Sem assim terem mérito de ser,
De serem palavras...
E assim poder pensar
Como se soltam as palavras...
Esta, aquela ou outra palavra,
Que ainda que não seja palavra,
Não é impossível de se soltar,
No como poder soltar
Palavras soltas de serem palavras...

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=10608 © Luso-Poemas

Este poema trabalha a obsessão pela palavra como matéria viva, interrogando‑a até ao limite da sua própria definição. A estrutura é circular, construída sobre a repetição insistente de perguntas — “Como se soltam palavras?”, “Como soletrar palavras?”, “Como verbalizar?” — que não procuram resposta, mas antes instauram um movimento de reflexão contínua. Esta repetição não é redundância: é método. O poema pensa a palavra através da própria palavra, num exercício metalinguístico que se aproxima da meditação e da desmontagem.

A abertura — “Soltar / Como se soltam palavras?” — instala imediatamente a tensão entre o acto e a impossibilidade do acto. “Soltar” é verbo de libertação, mas aqui surge como problema: as palavras são soltas, mas também soletradas, brilhantes, carregadas de ausência, incapazes de serem plenamente palavras. A oscilação entre presença e ausência é um dos eixos mais fortes do texto. Quando o poema afirma “Carregadas de ausência / Na presença de assim não serem palavras”, cria uma contradição produtiva: a palavra existe e não existe, é e não é, vive num limiar ontológico.

A secção “Soltar em palavras / Talvez assim…” funciona como uma pausa reflexiva, quase um suspiro. O poema tenta encontrar uma via para libertar aquilo que as palavras não ousam soltar. A frase “As palavras são o soltar de poucas palavras” é particularmente eficaz: condensa a ideia de que a linguagem é sempre insuficiente, sempre menor do que aquilo que tenta expressar. É uma formulação que poderia facilmente cair no banal, mas aqui ganha força porque surge depois de uma série de tentativas falhadas de definição.

A imagem “Providência escrita do não escrito / No papel excelso de assim não ser papel” é uma das mais interessantes do poema. O “não escrito” como providência, e o papel que não é papel, criam uma inversão simbólica que reforça a ideia de que a palavra é sempre promessa, nunca totalidade. O poema trabalha bem esta ambiguidade: o suporte da escrita é negado, a escrita é negada, mas ambas continuam a existir como possibilidade.

A secção sobre verbalizar — “Verbalizar verbos abreviados, / Encurtados pelo que não é verbo” — introduz uma dimensão quase linguística, quase técnica. O poema interroga a própria morfologia da língua, questionando o que é verbo, o que é abreviatura, o que é palavra. Esta parte é mais conceptual, menos imagética, mas mantém a coerência temática.

O momento mais forte do poema surge quando as palavras são divididas em sílabas: “pa-la-vras”. Aqui, o texto demonstra consciência da materialidade da linguagem. Ao fragmentar a palavra, o poema revela a sua estrutura interna e, ao mesmo tempo, denuncia a perda de sentido que acompanha essa fragmentação. “Sem assim terem mérito de ser, / De serem palavras…” é uma conclusão dura, que reforça a ideia de que a palavra só existe plenamente quando inteira, quando sentida, quando vivida.

O fecho retoma a pergunta inicial — “Como se soltam as palavras…” — mas agora com uma nuance: o poema admite que há palavras que não são palavras e, ainda assim, podem ser soltas. Esta ambiguidade final é bem conseguida, porque não resolve o problema; apenas o amplia. A última frase — “Palavras soltas de serem palavras…” — é um eco que devolve ao leitor a sensação de que a linguagem é sempre insuficiente, sempre em fuga, sempre em tentativa.

Formalmente, o poema é coerente, com ritmo marcado pela repetição e pela interrogação. A ausência de imagens concretas é deliberada: o texto prefere trabalhar com conceitos, com abstrações, com a própria mecânica da linguagem. Há pequenas oscilações sintácticas que poderiam ser depuradas, mas que não comprometem a força do conjunto. O poema é, acima de tudo, um exercício de pensamento poético sobre a palavra — e cumpre esse propósito com consistência.

Criado em: Hoje 21:51:58
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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