280. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Della-Porther. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Della-Porther.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Para nos conhecer é necessário ver-nos em um amigo. O amigo é nosso outro eu. Há amigos cujas almas se misturam e se confundem tanto com as nossas, e tanto que quando nos damos conta não conseguimos encontrar mais a costura que as juntou. A amizade é virtude ou implica em virtude, disse Montaigne. Por vezes certos amigos nos estendem tanto a sua amizade que desafia a moderação, transcende o amor de tal forma que nos parece que esse amor sempre esteve conosco. É tamanha a fusão que por vezes, carregam, facilmente consigo nossas dores, nossos sentimentos de tristeza, nossos temores. E de repente nada mais é seu ou meu. Vontades se misturam, toques reúnen-se, não há mais distinções.Laços diversos atam-nos para sempre. E a amizade torna-se união perfeita, sem fissuras, sem brechas, sustentáveis por si só. A amizade é mesmo um mistério. Como pensar que é possível uma ligação assim, perfeita e completa, quando vivemos num mundo transitório e passageiro, um mundo de movimento e finitude? Cabe, nesse mundo coincidência tão absoluta de uma identificação tão plena? Cabe. Misteriosamente cabe.Posto que a amizade é o mais belo lugar e meio. A amizade é uma aliança, uma sociedade que fazemos pura e simplesmente por escolha e vontade própria, onde não rivalizamos, não dispersamos. Buscamos o prazer pelo significativo prazer de ser e ter amigos. A semelhança da afinidade, convivência forte das coisas, identidade abençoada pelo Cosmos. Tornamo-nos o princípio e o gênero de todas as espécies quando buscamos o amigo, nosso parente espiritual. O consolidamos como vínculo de sangue. E damos qualidade e forma a esse convívio intenso e marcado para sempre em nossas vidas. Queremos o amigo por ele mesmo, por ele ser quem é e o que é. Assim é o amor e a amizade que me une a meu pai. Porque procedendo dele sou o seu outro, o outro ele mesmo. Só por isso pude descobrir quem eu era no dia que perdi meu pai. Ao ve-lo, sem vida entendi quem eu era. Aquele momento foi de mudança e movimento. Percebi a multiplicidade tênue e inconstante da própria vida, no meu espaço e no meu tempo. Percebi a existência a que desejava pra mim. Meu pai, ali naquele intante fora o espelho onde identifiquei-me. Nítido me fez acordar de um tempo em que mantive-me adormecida. Um tempo que não sei contar porque fora muito tempo. E senti, cruelmente o momento - esse que deparei-me privada do amigo mais caro e mais íntimo. Aquele do laço consaguíneo, aquele da costura sem emendas, transcedente, sem fissuras e brechas, o amigo perfeito e completo. Esse amigo que olhei para nele reconhecer-me. Alcancei minha solda fraterna. Clarificados tornaram-se dali por diante meus conflitos, meus laços, minhas experiências. Minha imagem agora sustentava-se, sustenta-se de tal forma que a leveza vive a me rondar, posto que, saber-se torna tudo tão mais original, compreensível e sólido, tal qual a solidez de ter sido forjada dentro do corpo forte de meu pai.O medo perde a importância, a obediência tem outro valor, o redor que temporariamente me pareceu estranho, retorna familiarmente em seu momento original. A cidade que naqueles dias era tão fria e distante, tão cinza, reencontra-se comigo trazendo uma infinita paz com seus coloridos e seus ruídos de amanhecer. Perdi a ingenuidade e me sinto melhor. Entendi que a vida não precisa ser entendida, precisa ser apreciada e aceita. Entretanto, ao perceber quem sou, a inquietude terminou; aprendi o que é separação, vida; aprendi que preciso aprender a viver e sobretudo a morrer. Porque agora sei para onde encaminha-se o meu conhecimento, os meus desejos, o meu mistério. Assim tornei-me diferente para ser exatamente como me sinto, dentro de mim: igual. Tornei-me mais tolerante, mais generosa, cuidadosa com a razão e a emoção. Vivo um dia por vez, um dia a cada dia, conhecendo o elemento singular do que é viver, existencialmente. Hoje, exatamente, dedico boa parte dos meus dias a escrever, para consagrar também a lembrança, a lembrança de um mútuo amor, um amor amigo, em nome desse laço que aponta-me a verdade e a vontade determinada, que aponta-me uma incrível força. Força que transporta-me para além de tudo que eu possa dizer e ser. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=11188 © Luso-Poemas O texto constrói-se como uma reflexão íntima sobre a amizade e o amor filial, articulando uma progressão que vai da definição filosófica da amizade à experiência concreta da perda do pai. A abertura, com a ideia de que “para nos conhecer é necessário ver-nos em um amigo”, estabelece um eixo conceptual forte, mas a formulação inicial aproxima-se de um tom ensaístico que por vezes se alonga mais do que se aprofunda. A referência a Montaigne é pertinente, mas surge quase como ornamento, não totalmente integrada na lógica interna do texto. A fusão das almas, a costura imperceptível, a transcendência do amor — tudo isto cria uma atmosfera de intensidade emocional, mas a insistência na enumeração de estados (“carregam nossas dores, nossos sentimentos de tristeza, nossos temores”) aproxima o texto de uma retórica sentimental que poderia beneficiar de maior contenção. Há momentos em que a linguagem se torna excessivamente enfática, como se a emoção procurasse afirmar-se pela acumulação de adjetivos e não pela precisão das imagens. A transição para a relação com o pai é o ponto mais forte do texto, porque abandona o tom generalista e entra numa experiência concreta, vivida, marcada por uma revelação súbita. O momento da morte do pai é descrito com intensidade, mas também com alguma irregularidade sintática: certas frases alongam-se em demasia, outras quebram o ritmo sem necessidade. Ainda assim, a imagem do pai como espelho identitário é poderosa e bem conseguida; é aqui que o texto encontra a sua verdadeira força. A ideia de que o sujeito só se reconhece ao ver o pai sem vida é dura, mas literariamente eficaz, porque transforma a perda num momento de clarificação existencial. A descrição da cidade que volta a ganhar cor e ruído após o luto é uma das passagens mais bem conseguidas, porque traduz a transformação interior através de elementos exteriores, sem recorrer ao sentimentalismo explícito. Há, contudo, uma tendência para a abstração excessiva, sobretudo na segunda metade do texto. Expressões como “multiplicidade tênue e inconstante da própria vida”, “elemento singular do que é viver, existencialmente”, ou “força que transporta-me para além de tudo que eu possa dizer e ser” aproximam-se de uma linguagem demasiado conceptual, que perde a nitidez que o texto alcança nos momentos mais concretos. A força emocional está lá, mas por vezes dilui-se em formulações que parecem procurar profundidade mais pela grandiosidade das palavras do que pela precisão da experiência. A repetição de ideias — a costura perfeita, a solda fraterna, a clarificação dos conflitos — cria uma certa circularidade, mas também uma sensação de que o texto poderia ser mais conciso sem perder impacto. Ainda assim, o fecho é eficaz: ao afirmar que escreve para consagrar a lembrança, o sujeito poético encontra uma função para a dor, transformando-a em gesto criativo. É aqui que o texto se resolve, porque a escrita surge como continuação do vínculo, não como lamento. A força que o pai lhe deu torna-se força para escrever, e essa transmutação é literariamente convincente. O texto, apesar das oscilações entre o ensaio e a confissão, entre o abstrato e o concreto, encontra o seu ponto mais alto quando abandona a retórica e se fixa na experiência vivida — e é aí que se torna verdadeiramente sólido.
Criado em: Hoje 19:50:28
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