289. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - elsa.
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De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de elsa.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Encontro-me sentada no sofá. A música deixa rasto neste canto, não sendo por mim recebida. Sinto-me envolvida na volúpia que encontro no teu olhar. Teu olhar que acolhe o meu corpo. Meu corpo que te pede luxúria. Apetece-me vagabundear sobre a nossa intimidade que ambiciono. Peço ao passado que me traga o calor do teu pescoço, com o cheiro entranhado na derme. Ainda sinto teus lábios presos entre meus dentes. Ainda sinto o momento.
Desejo-te e não sei o que isso é; só sei que me estonteia de tanto me agarrar afincadamente a este desejo, não desejando perdê-lo. Será este desejo uma brisa que se transforma em tornado que me acorda, que me açoita os sentidos e me lembra que estou aqui? Será que dou permissão a este desejo coexistir porque desejo ter este desejo? Será este desejar o desejo que o faz sobreviver ou será o objecto do desejo que o aviva? Sinto que a serenidade já há muito foi escamoteada pelo desejo. Este não vive da ilusão, mas comporta a ilusão como vertente virtual, enquanto expressão da minha realidade vedada aos outros.
Em emoções sou de poucas certezas. Tudo me surge carregado de neblina, a razão e até as tuas expressões. Tenho só uma certeza: não desejo qualquer um e porquanto não é a busca de prazer o meu móbil. Não é a necessidade que me atormenta. A necessidade é limitada mas não o desejo. A necessidade de prazer não pode ser minha – eu sei-o.
Será que este desejo de prazer, que permiti insuflar com o tempo, aumenta pelo perigo que me deveria afastar dele? Por vezes penso que não pretendo a satisfação deste prazer, mas por outras acho que controlo o sentido do meu querer para fugir à culpa. Por vezes, as minhas insistentes entregas ao desejo deixam-me cair no fosso que própria cavei e que me faço enfrentar perante a censura moral, que condena o meu tão desejado desejo. Penso em culpa: culpa de um pensamento, de uma palavra, de um gesto, de um toque, de um coito, de um gemido... só sinto culpa porque o outro me pode culpar. Mas sei que sou fraca e que me deixo entregar facilmente ao erotismo, fugindo da culpa rapidamente, que me quer ceifar o desejo ... ai!, como me possui este desejo!! Rapidamente me faço encontrar com o sustentáculo que me mantém na vertical: este desejo.
Será este desejo um preenchimento de um tédio? Mas como pode o tédio ter espaço na minha vida, se tento nunca lhe dar espaço de coexistência? Até porque se assim fosse não escolheria eu o objecto de desejo bem mais acessível, para concretizar a satisfação de prazer? Pois, mas, não procuro prazer, é verdade. Sinto-me tão embrulhada em pensamentos. Sinto-me tão desejosa de me embrulhar em teus braços.
Ai!!

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=11570 © Luso-Poemas

A peça organiza-se em torno de uma voz que se deixa atravessar por um desejo que é menos corporal do que conceptual, e isso é o primeiro ponto forte: o texto não se fixa na descrição do outro, mas na fricção entre pensamento e impulso. A abertura — “Encontro-me sentada no sofá. A música deixa rasto neste canto, não sendo por mim recebida.” — instala uma narradora em estado de suspensão, mas a frase perde alguma precisão por causa da estrutura “não sendo por mim recebida”, que soa mais explicativa do que orgânica. A musicalidade interna melhora quando surge “volúpia”, “luxúria”, “vagabundear”, mas há um desfasamento entre o léxico sensual e a construção sintática, que por vezes se torna demasiado discursiva, quase ensaística, quebrando o ritmo emocional que o texto tenta sustentar.

O texto trabalha bem a repetição como mecanismo de obsessão — “Ainda sinto… Ainda sinto…”, “Desejo-te e não sei o que isso é; só sei…”, “Será este desejo… Será que dou permissão… Será este desejar…”. Contudo, a repetição perde força porque não é sempre modulada; algumas frases replicam a mesma estrutura interrogativa sem variação rítmica, criando uma cadência algo monótona. A reflexão sobre o desejo enquanto entidade autónoma é interessante, mas por vezes desliza para formulações demasiado abstratas (“a ilusão como vertente virtual, enquanto expressão da minha realidade vedada aos outros”), que afastam o leitor da tensão inicial e criam um hiato entre emoção e conceito.

Há também um conflito entre a oralidade pretendida e a construção frásica. A narradora parece querer falar num fluxo íntimo, mas a sintaxe é frequentemente rígida, com encadeamentos longos e explicativos que retiram espontaneidade ao discurso. Exemplos: “Por vezes penso que não pretendo a satisfação deste prazer, mas por outras acho que controlo o sentido do meu querer para fugir à culpa.” A frase é correta, mas demasiado analítica para o tom confessional que o texto tenta manter. O mesmo sucede com “a necessidade é limitada mas não o desejo”, que funciona como tese, não como pulsação narrativa.

O texto ganha força quando abandona a explicação e se aproxima da imagem concreta: “o calor do teu pescoço, com o cheiro entranhado na derme”, “teus lábios presos entre meus dentes”, “o fosso que própria cavei”. Aqui há uma corporeidade eficaz, sem excesso, que sustenta a tensão emocional. No entanto, quando a narradora tenta justificar moralmente o desejo, o texto perde foco. A enumeração “culpa de um pensamento, de uma palavra, de um gesto, de um toque, de um coito, de um gemido...” é forte, mas o fecho “só sinto culpa porque o outro me pode culpar” dilui o impacto, porque transforma a culpa em mecanismo social, não em conflito interno — e o texto parece querer trabalhar precisamente o conflito interno.

Há também oscilações de registo: “ai!, como me possui este desejo!!” e “Ai!!” no final quebram a coerência estilística, aproximando-se de um dramatismo que não está presente no resto da peça. Estes elementos enfraquecem a construção, porque introduzem uma oralidade exclamativa que não dialoga com o tom reflexivo dominante.

Em termos de estrutura, o texto é coerente: começa na sensação, passa pela reflexão, entra na culpa, regressa ao corpo. Mas falta-lhe uma contenção que permita ao leitor acompanhar a espiral sem que esta se torne redundante. A narradora afirma repetidamente que não procura prazer, mas o texto insiste na descrição do desejo como prazer — esta tensão conceptual não está totalmente resolvida, e isso cria uma ligeira inconsistência semântica.

Em suma: há força imagética, há autenticidade emocional, há um bom eixo temático (o desejo como entidade que se autonomiza), mas a peça beneficiaria de maior depuração sintática, de variação rítmica nas interrogações e de contenção nas exclamações finais. A melhor parte é a que se aproxima da imagem concreta; a mais frágil é a que se perde em abstrações que não acrescentam densidade ao conflito.

Criado em: Hoje 19:25:34
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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