393. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Pedro Sattler.
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24/12/2006 19:19
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Pedro Sattler.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Lentamente o avião começa a andar.
As rodas giram,
Eu não as vejo e não as sinto,
Mas elas estão lá.

A velocidade aumenta
E imagens correm lá fora
Sombras, correntes de cores.
Um sentimento estranho, bizarro, apelativo instala-se.

Sinto o meu corpo a crepitar.

E as sombras ficam para trás.

E o chão perde-se lá em baixo.

Está ainda de noite
E as luzes, tão nítidas.
Padrões variados comprovam o chão:
Ele está lá
Onde luzes estão.

E o ruído!
Ele esteve sempre lá
Jogando com a velocidade.

Luzes anónimas, perdidas,
Deveras, elas não precisam de nome para o que fazem,
Um infinito mapa de estrelas.
Parecem ter-se cansado do aborrecido vazio do céu.

Montanhas, estádios, pontes.

Subimos

Nuvens chegam,
Para ficar.
Nuvens densas primeiro,
Farrapos e nevoeiro e laranjas.

O ruído aumenta.
O borbulhar de algo sólido,
Como se desejasse a liberdade do liquido.
O ruído ouve-se, sinto-o.

Mais laranjas,
Luz matinal, reveladora.
O doce orvalho dos céus,
Trás tormento aos meus olhos cansados,
Noctívagos.

Asas sempre paradas, lá fora.
O mundo perde-se.
Só há luz e as cores do céu.
E as asas, claro,
Ainda lá estão.

A luz veio para ficar:
Será uma longa viagem.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=17614 © Luso-Poemas

O poema é uma narrativa sensorial da experiência de descolagem num avião, articulada em versos curtos que privilegiam a percepção física, visual e sonora. A estrutura é fragmentada, acompanhando o ritmo da própria viagem: primeiro o movimento lento, depois a aceleração, a perda do chão, a entrada nas nuvens e, finalmente, a estabilização na luz matinal. Esta progressão confere ao texto uma cadência cinematográfica, onde cada imagem funciona como fotograma de uma sequência contínua.

A abertura — “Lentamente o avião começa a andar. / As rodas giram, / Eu não as vejo e não as sinto, / Mas elas estão lá.” — estabelece o tom observacional. A afirmação “mas elas estão lá” introduz uma consciência do invisível, reforçando a ideia de que a experiência do voo é sempre parcialmente oculta. A sintaxe é simples e correta, com exceção de “andar”, que, embora compreensível, poderia ser substituído por “deslocar-se” para maior precisão técnica; ainda assim, a escolha mantém o tom coloquial.

A secção seguinte — “A velocidade aumenta / E imagens correm lá fora / Sombras, correntes de cores. / Um sentimento estranho, bizarro, apelativo instala-se.” — desloca o poema para uma dimensão sensorial mais intensa. A enumeração “sombras, correntes de cores” cria uma fusão entre movimento e abstração. A expressão “apelativo” é incomum neste contexto, mas funciona como tentativa de nomear uma sensação difícil de definir. A ortografia é correta, e a cadência mantém coerência.

A frase isolada — “Sinto o meu corpo a crepitar.” — é particularmente eficaz. Introduz uma dimensão física inesperada, quase orgânica, que reforça a estranheza da aceleração. O verbo “crepitar” é forte, sugerindo tensão interna, vibração, talvez ansiedade.

A sequência — “E as sombras ficam para trás. / E o chão perde-se lá em baixo.” — marca a transição entre o mundo terrestre e o aéreo. A simplicidade das frases reforça a clareza da imagem. A construção é correta e fluida.

A secção sobre as luzes — “Está ainda de noite / E as luzes, tão nítidas. / Padrões variados comprovam o chão: / Ele está lá / Onde luzes estão.” — articula uma relação entre luz e certeza. O chão só é reconhecido através das luzes, o que reforça a ideia de que a percepção é mediada. A frase “onde luzes estão” é sintaticamente simples, mas eficaz dentro do registo contemplativo.

A reflexão sobre o ruído — “E o ruído! / Ele esteve sempre lá / Jogando com a velocidade.” — introduz uma personificação sonora. O ruído torna-se companheiro da viagem, elemento constante que acompanha a transformação. A construção é clara e ritmada.

A secção — “Luzes anónimas, perdidas, / Deveras, elas não precisam de nome para o que fazem, / Um infinito mapa de estrelas. / Parecem ter-se cansado do aborrecido vazio do céu.” — aproxima o poema de um registo mais metafórico. As luzes tornam-se estrelas artificiais, cansadas do céu. A frase “não precisam de nome para o que fazem” é interessante, sugerindo que a função supera a identidade. A ortografia é correta, e a cadência mantém fluidez.

A enumeração — “Montanhas, estádios, pontes.” — funciona como corte abrupto, quase como lista de elementos que surgem e desaparecem rapidamente. A secura da enumeração reforça a velocidade da viagem.

A secção das nuvens — “Nuvens chegam, / Para ficar. / Nuvens densas primeiro, / Farrapos e nevoeiro e laranjas.” — articula uma progressão visual. A palavra “laranjas” como substantivo isolado é ousada, funcionando como sinédoque cromática. A construção é clara, embora marcada por certa fragmentação deliberada.

A parte final — “Mais laranjas, / Luz matinal, reveladora. / O doce orvalho dos céus, / Trás tormento aos meus olhos cansados, / Noctívagos.” — introduz uma dimensão poética mais marcada. O “orvalho dos céus” é metáfora eficaz para a luz matinal. O deslize ortográfico está em “Trás”, que deveria ser “Traz”. A palavra “noctívagos” é bem escolhida, reforçando a ideia de olhos habituados à noite.

O fecho — “Asas sempre paradas, lá fora. / O mundo perde-se. / Só há luz e as cores do céu. / E as asas, claro, / Ainda lá estão. / A luz veio para ficar: / Será uma longa viagem.” — sintetiza o movimento do poema: a perda do mundo, a permanência das asas, a inevitabilidade da luz. A cadência é calma, quase meditativa.

O texto inscreve-se num estilo lírico-descritivo contemporâneo, marcado por fragmentação, observação sensorial, uso de imagens cromáticas e fusão entre descrição técnica e metáfora. A força do poema reside na capacidade de transformar a experiência do voo em narrativa sensorial e emocional. A fragilidade está em pequenos deslizes ortográficos e em algumas escolhas lexicais que podem soar ligeiramente deslocadas, mas o conjunto mantém coerência interna e expressa de forma clara a estranheza, a beleza e a suspensão próprias da descolagem.

Criado em: Hoje 17:38:54
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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