447. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Barbosa Junior. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Barbosa Junior. Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.
O vento assovia na via Eu via a cria sem dono Que passava cheirada De cola e amola Sem sapato ou roupa Subindo suja Óh Deus ó Morro descendo no borogodó da rua Que ninguém recicla nem Lixo comum Na rua joga Jogo azarado, chorume da cana, só cana, é cana e mais cana É gás, é carro e carroça Sirene socorro É tropa subindo o Morro Morre Eu, você e o bendito Santo Expedito Da cor- rente Que partiu e foi pra lá de Bagdá ou ali ou acolá Fazer sei lá o que Se aqui já dá pra ver É tanta bagunça É barulho Orgulho Bagulho Entulho tudo aí, ou aqui, ou lá Jogado as traças E trapaças E nem aí Tô, num tô, eu tava Mas é tanta CPI Mas e dái? Eu quero ovo Eu ovo Mexido, cozido, fritando nesse calor Que importa? Entupiram a aorta E dão zero Fome zero Coca zero Zero a zero Empatando minha vida Cutucando a ferida Vida minha vida Cadê a porta? To de saída! Passa noite Passa dia Passa a folha que eu lia E só desgraça Mas que graça Tudo de graça Eu apago Eu pago, economizo Finjo ter juízo E culpo a cachaça Mas é mesmo Uma desgraça É um pregando ali na praça E outro dando empréstimo Dô, num dô, to dando E a pomba sai voando Sem migalha E eu aqui Que nem navalha Cortando A rua Sem faixa Sem passarela É tudo mesmo uma cela Essa coisa Esse transito Tanta gente Pra cima Pra baixo Pra cima Pra baixo Pra cima Pra baixo Dizendo sim Eu digo não Mas e daí? Eu sou anão E o orçamento é chato Coça, coça, coça Esfola ter saco Nesta birosca De pátria Sem pai, nem mãe Ai minha mãe Ai meu pai Ai leishmaniose “- Um Bauru sem úlcera por favor!” Ai, ai, ai Não me larga esse “uai” Sou do interior Mas que horror A Capital Uma loucura O Capital De giro, sem giro Zonzo ou alienado Em trinta e seis vezes Sem entrada! Hahaha... nem saída! Mas que dor de barriga Melhor eu ir O circular já vai partir A circular não passou E o Zé ninguém Cagando de rir Mesmo sem nenhum vintém Fica aqui E tudo passa. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=19522 © Luso-Poemas O poema apresenta-se como fluxo verbal torrencial, construído em versos curtos, fragmentados, que simulam simultaneamente o ritmo caótico da rua e a respiração entrecortada de quem a atravessa. A ausência de pontuação convencional, a justaposição de imagens e a alternância entre registros populares, coloquiais e quase performativos criam um efeito de oralidade intensa. A ortografia é, no geral, correta, embora marcada por escolhas deliberadamente desviantes (“dô, num dô”, “to”, “num tô”), que reforçam o caráter de fala urbana. Há que notar, porém, que certas quebras (“Da cor- / rente”) são mais estilísticas do que necessárias, e algumas elisões poderiam ser mais controladas para evitar ruído visual. A sintaxe é fragmentada, mas coerente com o estilo de poema social de observação direta. A abertura — “O vento assovia na via / Eu via a cria / sem dono” — estabelece o jogo fonético que atravessa o texto. A repetição de “via” e “cria” cria cadência interna, enquanto a imagem da criança “sem dono” introduz o tema da vulnerabilidade urbana. A sequência “Que passava cheirada / De cola e amola / Sem sapato / ou roupa / Subindo suja” intensifica o cenário de marginalidade. A construção é direta, sem ornamento, aproximando-se de um realismo cru. O uso de “cheirada de cola” é sintaticamente correto, embora duro, e reforça o caráter social do poema. A passagem — “Óh Deus / ó / Morro descendo / no borogodó / da rua” — desloca o texto para um registo mais performativo. A invocação breve (“Óh Deus”) seguida de “ó” cria pausa dramática. “Borogodó” introduz coloquialismo que contrasta com a gravidade das imagens anteriores. A frase “Que ninguém recicla nem / Lixo comum / Na rua joga” apresenta inversão sintática que, embora irregular, mantém sentido: a rua é espaço onde tudo se acumula, inclusive aquilo que não se recicla. A secção — “Jogo azarado, chorume da cana, só cana, é cana e mais cana / É gás, é carro e carroça / Sirene socorro / É tropa subindo o / Morro / Morre / Eu, você e o bendito / Santo Expedito” — é marcada por ritmo acelerado. A enumeração cria efeito de saturação. A quebra “Morro / Morre” é eficaz, transformando o espaço físico em verbo que sugere morte. A referência a “Santo Expedito” introduz religiosidade popular, coerente com o ambiente urbano descrito. A divisão de “Da cor- / rente” é visualmente interessante, mas pode parecer excessivamente artificiosa. A sequência — “É tanta bagunça / É barulho / Orgulho / Bagulho / Entulho tudo aí, ou aqui, ou lá” — apresenta jogo sonoro entre “orgulho”, “bagulho”, “entulho”, reforçando a ideia de acumulação caótica. A construção é clara, apesar da ausência de pontuação. A enumeração de “trapaças”, “CPI”, “ovo”, “cachaça” cria mosaico de referências sociais e políticas, aproximando o poema de uma crónica poética. A frase “Entupiram a aorta / E dão zero / Fome zero / Coca zero / Zero a zero / Empatando minha vida” é particularmente eficaz: a repetição de “zero” funciona como crítica à insuficiência das políticas públicas, sem necessidade de explicitação. A estrofe seguinte — “Passa noite / Passa dia / Passa a folha que eu lia / E só desgraça / Mas que graça / Tudo de graça” — retoma o jogo de antíteses. A construção é sintaticamente simples, mas ritmicamente forte. A sequência “Eu apago / Eu pago, economizo / Finjo ter juízo / E culpo a cachaça” apresenta paralelismo claro, reforçando a ideia de sobrevivência precária. A imagem da “pomba” que “sai voando / Sem migalha” é eficaz, funcionando como metáfora de abandono. A secção final — “É tudo mesmo uma cela / Essa coisa / Esse transito / Tanta gente / Pra cima / Pra baixo” — intensifica o ritmo repetitivo. A repetição de “pra cima / pra baixo” cria efeito de movimento incessante. A frase “Eu sou anão / E o orçamento é chato” introduz humor ácido, contrastando com o tom geral. A enumeração de “Ai minha mãe / Ai meu pai / Ai leishmaniose” é abrupta, mas coerente com o estilo de colagem urbana. O fecho — “O circular já vai partir / A circular não passou / E o Zé ninguém / Cagando de rir / Mesmo sem nenhum vintém / Fica aqui / E tudo passa.” — encerra o poema com ironia amarga. A construção é clara, com ritmo bem marcado. O texto inscreve-se num estilo lírico‑social urbano, próximo da poesia falada, com elementos de slam, crónica poética e realismo fragmentado. A força do poema reside na oralidade intensa, na colagem de imagens e na capacidade de transformar caos urbano em cadência literária. As fragilidades surgem em algumas quebras artificiais (“Da cor- / rente”), na ocasional dispersão temática e na irregularidade sintática que, embora estilística, pode dificultar a leitura. Ainda assim, o conjunto mantém unidade estética e apresenta voz poética marcada, consciente do espaço social que retrata.
Criado em: Hoje 14:40:39
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