497. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Rogério Beça. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Rogério Beça. Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.
Não entendo concerteza a exactidão nem tão pouco a semelhança; um centímetro a mais que um milímetro a menos de algo tão diferente como as cores de um arco-íris. A destreza de um canhoto de uma carta, o percurso de uma estrada curta sem curvas que liga uma sala a um quarto de litro de leite Vigor. A letra do absurdo e inacessível trecho de uma prosa longa e viva. O suspiro, que parece ser a inspiração profunda e satisfeita de um transeunte que se regala presenciando o amanhecer de um dia comum. Não entendo as formas como elas são, porque são tantas e tão diferentes. Assim como são tão parecidas como fotocópias, com os mesmos jeitos, volumes, medidas, almas… A precipitação de açúcar no meu café do almoço, o brilho luxuriante do pastel de nata que como, logo a seguir. Nem compreendo o negativismo com que grande parte das pessoas que eu conheço encaram a própria vida e a das outras. O sorriso enorme de quem ouve as palavras certas, nos momentos menos apropriados. O brilho das calçadas perfeitamente gastas… Não entendo o pormenor e o detalhe, mas também não poderia viver sem eles. A simplicidade, a complexidade, a tristeza da felicidade e tantas outras coisas com idade; Advérbios de estado, como modo de ganhar e perder a perfeição do momento inacabado de um segundo. O marco do correio, a marca da camisola, os problemas insolúveis pelos génios da ciência moderna. Aquários e dragões, postos de alta patente, carros de elevada potência, caracóis, cabos rasos, cordas finas, carinhos… Algures nesta gestação haverá uma borboleta? Não entendo o poder de um parágrafo que estimula, aborrece e que depois se esquece. Arvoredos sem energia, esgotados, sem alegria; rotinas acíclicas rodeadas de intermináveis rituais, monólogos, pensamentos, meditações, encontros, ouvir anjos ditando sinas, futuros, autismos. Páro para raciocinar sobre o brilho das estrelas, se não será o oposto de uma campa. Avio um olhar para um cliente; ofereço uma vida inteira de dedicação à minha prole e espero que nenhuma tumorização a faça à minha semelhança… Acerto as minhas contas com o destino e faço novo contrato. Não há toque que se pareça com um intra-uterino... Há coisas que eu não entendo… Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=21529 © Luso-Poemas O texto organiza-se como fluxo de consciência poético, em verso livre, onde o eixo temático é a impossibilidade de compreender o mundo em toda a sua minúcia: medidas, formas, gestos, objetos, sentimentos, linguagem. A estrutura é fragmentária, com imagens que se sucedem em associação livre, aproximando o poema de um registo ensaístico‑lírico, quase filosófico, em que o sujeito enumera aquilo que “não entende” para, paradoxalmente, afirmar a necessidade dessas mesmas coisas. A ortografia apresenta alguns deslizes que merecem correção: “concerteza” deveria ser “com certeza”, “nem tão pouco” é forma menos adequada do que “nem tampouco”, “luxuriante” é termo mal ajustado ao contexto (seria mais natural “luzente” ou “brilhante”), “ha tantos” deveria ser “há tantos”, “estado” em “advérbios de estado” é pouco preciso (mais comum seria “advérbios de modo”), “tumorização” é neologismo pesado, embora compreensível. A sintaxe, apesar de algumas frases longas e de pontuação irregular, mantém-se inteligível, com um tom próximo da prosa poética. O texto inscreve-se num estilo lírico‑reflexivo de feição moderna, com forte inclinação para o surrealismo leve e para a enumeração caótica como forma de pensamento. A abertura, com a oposição entre “exactidão” e “semelhança” e a imagem do centímetro e do milímetro, introduz a tensão entre precisão e diferença, logo deslocada para a metáfora das cores do arco‑íris. A seguir, o poema encadeia imagens aparentemente desconexas — “destreza de um canhoto de uma carta”, “estrada curta sem curvas”, “quarto de litro de leite Vigor” — que funcionam como exemplos de um real quotidiano visto sob lente de estranheza. Esta estratégia de justaposição cria um efeito de absurdo controlado, reforçado pela referência à “letra do absurdo e inacessível trecho de uma prosa longa e viva”, que parece comentar o próprio texto. Ao longo do poema, o sujeito poético insiste na fórmula “não entendo”, que se torna refrão conceptual: não entende as formas, as atitudes negativas perante a vida, o poder de um parágrafo, o brilho das estrelas, o detalhe e o pormenor, mas reconhece que não poderia viver sem eles. Esta ambivalência é central: o não entendimento não é rejeição, mas reconhecimento de limite e, ao mesmo tempo, de fascínio. A enumeração de objetos e situações — açúcar no café, pastel de nata, marco do correio, marca da camisola, aquários, dragões, carros, caracóis, cordas, carinhos — aproxima o texto de uma poética do inventário, em que o mundo é listado como se fosse um catálogo de enigmas. Formalmente, o poema trabalha com frases longas, pontuação por vezes irregular e encadeamento de ideias que se aproximam da prosa, mas mantêm ritmo interno. Há momentos de particular força imagética, como a aproximação entre “brilho das estrelas” e “oposto de uma campa”, que articula vida e morte num contraste súbito, ou a referência a “rotinas acíclicas rodeadas de intermináveis rituais”, que condensa bem a sensação de repetição sem sentido. O fecho — “Não há toque que se pareça com um intra‑uterino... / Há coisas que eu não entendo…” — retoma o motivo inicial, encerrando o texto num círculo de perplexidade que não se resolve, apenas se assume. Em termos estilísticos, o poema situa‑se num registo de prosa poética lírico‑filosófica, com traços de modernidade e de experimentalismo leve, sobretudo na forma como mistura linguagem quotidiana, termos técnicos (“advérbios”, “génios da ciência moderna”) e imagens quase surrealistas. A força do texto reside na coerência do gesto: assumir o não entendimento como matéria poética e transformar o detalhe do mundo em enigma. As fragilidades concentram‑se em alguns excessos de enumeração, em neologismos ou escolhas lexicais discutíveis e em pontuação que poderia ser mais rigorosa, mas não quebram a unidade nem o tom. O conjunto apresenta uma voz que pensa em voz alta, entre ironia discreta e perplexidade genuína, fazendo da incompreensão uma forma de olhar.
Criado em: Hoje 7:42:17
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