34. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Peixão89.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Peixão89.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Um rosto sem rosto
Desfigurado
Não é ninguém
Um sem rosto qualquer
A Luz
De repente a luz
Abrem-se os olhos
E me brilham os olhos
Um novo mundo
Uma nova visão
São as cores
Cores e a vida
Começa-se a ver, a vida
Mais um pouco
São as narinas
O ar
Ah! Como é bom respirar o ar
Encher os pulmões
Ver e cheirar
Cheirar e ver
A boca
Agora é a boca
Pode-se abrí-la, gerar ruído
Falar
Ver, cheirar e falar
Falar, é falar
Poxa, é um novo mundo
Uma nova cara
Uma nova identidade
Não é mais um sem rosto qualquer
Não é mais um desfigurado
Ver
Cheirar
Falar
Viver e ver
Cheirar e viver
Viver e falar
Até brilhar
Sim, viver e não ficar mais parado
Não é mais um rosto suspenso no ar.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=1001 © Luso-Poemas

Há neste poema uma espécie de nascimento às avessas: não o nascimento biológico, mas o despertar de uma identidade que antes era “um rosto sem rosto”, um ser suspenso, quase inexistente. A crónica que o texto sugere é a de alguém que, de súbito, descobre o mundo pelos sentidos — primeiro a luz, depois as cores, o ar, a fala — como se cada gesto fosse uma conquista elementar.

A força do poema está justamente nessa progressão sensorial. O ritmo é fragmentado, quase telegráfico, e isso funciona bem: dá a sensação de alguém que ainda está a aprender a nomear o que vê. A repetição (“Ver e cheirar / Cheirar e ver”, “Falar, é falar”) reforça essa aprendizagem infantil, ou melhor, esse reaprender — como se o palhaço fosse uma figura que renasce para si mesmo.

O texto, porém, oscila entre momentos de descoberta genuína e momentos em que a enumeração se torna mecânica. Quando dizes “Poxa, é um novo mundo / Uma nova cara / Uma nova identidade”, a frase perde força porque explica aquilo que o poema já estava a mostrar. A crónica literária ganha mais quando confias na imagem, não na explicação.

Há também um potencial simbólico que poderia ser mais explorado: o palhaço, tradicionalmente, é a figura que esconde a dor por trás da máscara. Aqui, porém, ele não esconde — ele ganha um rosto. É uma inversão interessante, mas o poema não chega a tocar na ambiguidade emocional dessa figura. Fica mais no plano da descoberta física do que na descoberta interior.

O fecho — “Não é mais um rosto suspenso no ar” — é eficaz: fecha o arco narrativo e devolve ao leitor a sensação de que houve, de facto, um caminho percorrido. Mas ainda assim, falta-lhe uma imagem mais singular, algo que marque o texto como teu e não como uma variação de um motivo já conhecido.

Em suma: é um poema com boa intuição rítmica e uma ideia clara de renascimento sensorial. Para crescer literariamente, precisa de menos explicação, mais imagem, e talvez um toque da ambiguidade emocional que a figura do palhaço naturalmente carrega.

Criado em: Hoje 16:29:19
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